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Lembranças do amigo inesquecível
por Néri
Pedroso
O
escritor Salim Miguel, um dos integrantes do Grupo Sul, movimento que
instaurou o modernismo catarinense na década de 1940, conversa
sobre Martinho de Haro, que participou ativamente da revista “Sul”,
produzida por intelectuais, escritores e artistas com o objetivo de renovar
o pensamento crítico catarinense com reflexões sobre diferentes
áreas da criação, como a literatura, o teatro, o
cinema e as artes plásticas. Boa memória, boa conversa,
Salim lembra do amigo, como homem reservado, generoso e, sobretudo, um
profissional das artes, cujo exemplo deveria ser seguido na atualidade.
Nesta entrevista, concedida com exclusividade para a revista “um
ponto e outro”, lembra do primeiro encontro, do convívio
social, da “Sul”, da conversas, da formação
do circuito, das leituras, do reconhecimento social, do profissionalismo
e, por fim, sobre o centenário, que envolve três exposições
simultâneas, além de outras iniciativas. Ele alerta sobre
a necessidade de assegurar a itinerância deste acervo, expondo-o
especialmente no eixo Rio-São Paulo. “O importante é
que a mostra não fique em Florianópolis, que o governo catarinense,
do Rio, de São Paulo ou federal, alguém tenha sensibilidade”,
defende o escritor.
O
primeiro encontro
A Eglê conheceu o Martinho antes que eu. A família de Eglê
é de Lages e a de Martinho de São Joaquim. Naquela época,
nos anos 1930 e 40, São Joaquim e Lages eram a mesma coisa. Eu
cheguei em Florianópolis em 1943 e ele em 1944. Quando estourou
a Segunda Guerra, ele estava em Paris com bolsa, estudando com um nome
que não é importante das artes plásticas francesas,
mas era talvez o melhor professor chamado Othon Friesz. Ao estourar a
guerra em 39 foi uma loucura. O Martinho não sabia como voltar
para o Brasil, o Rodrigo tendo acabado de nascer. A família teve
de sair de Paris para Madri, de Madri para Lisboa, onde esperou um navio
que viesse para o Brasil. Só que, em vez de vir para Florianópolis,
ele foi para São Joaquim, onde ficou até 44. Eu cheguei
antes, em 43. Só nos conhecemos em 46, quando fizemos um primeiro
contato. Martinho já estava começando a trabalhar como professor,
não tinha nenhuma vocação, mas precisava sobreviver,
né? Então, começou a fazer principalmente retratos
de políticos. Na Assembléia Legislativa ou no acervo do
governo há todos os governadores e políticos pintados pelo
Martinho. Numa destas vezes em que ele estava pintando um destes, nos
conhecemos. Imediatamente vimos que tínhamos afinidades, embora
a diferença de idade. Ele nasceu em 1907, eu em 24. Era uma diferença
grande, mas ao contrário, já começamos nos tratando
por tu. Durante todos os anos que fiquei em Florianópolis, até
ser obrigado a sair de Santa Catarina por causa do golpe militar, estávamos
sempre juntos, íamos à casa dele, a Eglê e eu, víamos
o que ele estava fazendo. Quando vinha alguém de fora, não
precisava ser um artista plástico, um pintor ou desenhista, desde
que fosse alguém que se interessasse por arte, fazíamos
questão de levá-lo até a casa do Martinho. A gente
nunca perdeu contato, nem quando mudamos para o Rio de Janeiro. Quando
vinha a Santa Catarina procurava por ele. No livro chamado “SC Terra
e Gente”, o primeiro álbum sobre o Estado feito no governo
Colombo Salles, o último capítulo é dedicado às
artes plásticas, com texto da Eglê. Não é crítica,
é um levantamento. A primeira página e foto, em cores, um
álbum grande, é sobre o Martinho de Haro. A gente nunca
perdeu o contato com ele.
Convívio
social
Ele era meio arredio no convívio social, mas era um excelente papo
quando não era um grupo grande, quando era com amigos com quem
ele se afinava - o que acontece com muita gente, não é mesmo?
Eglê, dona Maria (mulher do artista) e o Martinho foram grandes
amigos. Quando a gente levava alguém lá, lembro, por exemplo,
o artista, um dos principais capistas da Editora Globo, um gaúcho
chamado Edgar Koetz, (1913-1969) que vinha muito a Florianópolis.
Na casa do Martinho, os dois emendaram um papo que não terminava,
aí o Koetz quis ver a cerâmica popular criada em São
José. A dona Maria não quis ir. Fomos no carro do Martinho,
ele dirigindo, o Edgar, ao seu lado. Eu e a Eglê no banco de trás.
A Eglê até hoje lembra, meio apavorada (riso) que, em cima
da ponte - que naquela época não era cimentada, era de madeira
-, o Martinho se entusiasmava e tirava as mãos da direção.
Falava (riso) com o Edgar, às vezes virava-se para falar com a
Eglê e comigo, abanando as mãos e o carro (riso). Os artistas
Carlos Scliar (1920-2001), o Bruno Giorgio (1905-1993), o escritor Marques
Rebelo (1907-1973), um dos que ajudou a recuperar o Martinho, todo esse
pessoal, nós levávamos à sua casa. E quando vinha
alguém que ele achava que nos interessasse, fazia questão
de nos chamar. De maneira que era, como diz a dona Maria na entrevista
para o Walmir Ayala (1933-1991), meio arredio mas, ao mesmo tempo, tinha
o outro lado, quando era com um grupo pequeno com pessoas com quem ele
se acertava. Por exemplo, ele fez para nós uma coisa fantástica.
Para lançar a revista “Sul” em novembro de 1947 - está
fazendo 60 anos, parece que foi ontem! -, tivemos de fazer um espetáculo
de teatro, três peças em um ato. Em 49, para continuarmos
tivemos de fazer um segundo espetáculo, já aí com
a peça em três atos “Cândida”, de Bernard
Shaw (1856-1950). Não tínhamos dinheiro para fazer cartazes,
propaganda, para nada, então o que fizemos? Fomos ao Martinho e
pedimos que ele fizesse a cara de cada um dos intérpretes. Ele
fez. Quer ver uma coisa? (Salim vai à sua biblioteca para mostrar
um desenho de Eglê, emoldurado na parede). Montamos um painel grande
com a cara de todos neste tamanho, neste formato. Expomos durante a apresentação,
quando terminou, fomos entregar a ele, que disse “não, agora,
isso é de cada um de vocês”. Ele presenteou, vê
como ele era, generoso, um negócio de valor.
Revista
Sul
Começamos a pedir colaborações de Martinho para a
“Sul”. Ele fez três capas inteiramente diferentes, duas
eram ilustrações e a terceira...tinha acabado de falecer
o Graciliano Ramos (1892-1953), queríamos dedicar uma homenagem,
fomos ao Martinho com um retrato do escritor. Ele começou, nos
anos 50, a fazer capas e o miolo da revista com numerosas ilustrações,
inclusive nos últimos números têm uma farinhada. No
painel que está na reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC) tem uma farinhada, um avanço melhor e maior cuja idéia
básica é a que está na revista.
Conversas
Conversávamos de maneira geral, mas ele tinha uma preferência
por mar. O mar é presença constante. Além disso,
a natureza-morta, que é o que eu tenho dele, uma natureza-morta.
Ele sabia, como pouco pintores, dar vida a uma natureza-morta. No Rio,
conviveu com o Di Cavalcanti (1897-1976), com esse pessoal todo. Se o
Martinho, depois do curso em Paris tivesse continuado a morar no Rio,
seria um dos nomes altamente representativos da pintura moderna brasileira.
Não sei se pelo temperamento ou pelo trauma que foi interromper
o curso em Paris e ter de fazer uma viagem complicada para chegar ao Rio
e Santa Catarina, ele se isolou durante quatro anos. Exilou-se em São
Joaquim, de onde só saiu em 1944, quatro anos depois. Lá
ele se isolou, como não era de muitas relações, tinha
amigos, conhecidos, mas não tinha um grupo grande. Tinha afinidades,
mas se não ia com a cara de uma pessoa (riso), fim de papo! Sua
permanência em São Joaquim fez com que ele não se
tornasse um nome conhecido nem em Florianópolis. Costumo dizer,
e não estou exagerando, que nós ajudamos a recuperá-lo
sob esse aspecto: a revista não era mais de Florianópolis
e de Santa Catarina, era do Brasil. Tínhamos correspondentes e
distribuição em todo o país, de um extremo a outro,
e de fora do país também, estávamos em quase 20 países.
O Martinho passou a ser um pouquinho mais conhecido e aí num determinado
momento não éramos mais nós, as pessoas que vinham
a Santa Catarina queriam conhecer o Martinho. Não era suficiente,
era necessário que ele fizesse exposições. Para sobreviver,
além de ser professor, de pintar políticos e administradores,
criava painéis. Era a maneira que tinha para se agüentar,
fazia quadros que algumas pessoas compravam por um preço abaixo
do que valiam, mas para ele era importante. Lembro, que nos anos do Rio
de Janeiro, várias vezes, ele esteve no nosso apartamento, nós
oferecíamos jantares, ajudamos na divulgação, tornou-se
mais conhecido, reencontrou algumas das pessoas com quem ele tinha convivido.
Formação
do circuito
Ele participa do processo de criação do Museu de Arte de
Santa Catarina (Masc), em 1949, acompanha a exposição e
está presente nas palestras do Marques Rebelo, que foram altamente
provocativas. O Rodrigo de Haro tinha dez anos, ele estava sempre junto
do pai. Em 1952 ou 53, Rebelo faz uma exposição em Belo
Horizonte e leva, talvez, o primeiro desenho do Rodrigo para fora de Santa
Catarina. O Rebelo incentivava muito o Martinho, tinha encantos pela pintura,
dizia que ele devia sair, fazer exposições fora. Entre 64
e 69, quando voltávamos para fazer férias em Florianópolis,
Eglê e eu, íamos visitá-lo. Quando ia ao Rio, ele
nos visitava. Os contatos rarearam, mas quando voltamos, até ele
falecer em 85, a gente retomou o convívio, conversávamos
muito, discutíamos, falávamos na obra dele, ele estava querendo
saber o que estávamos fazendo. Quando faleceu, estávamos
em Lisboa. A “Sul” terminou em dezembro de 57, mas o número
só foi lançado em janeiro de 58. Fizemos um jantar com uma
velinha acesa, como se fosse um velório, falando dos méritos
e deméritos da falecida. Logo, um grupo de artistas, a maioria
ligados a “Sul”, criou o Grupo de Artistas Plásticos
de Florianópolis (Gapf). O Martinho participou, agora qual foi
a participação, se efetiva como foi a do Hugo Mund Jr.,
Ernesto Meyer, Tércio da Gama, Aldo Nunes e outros, não
sei. Mas que ele participou, participou. E, é claro, era importantíssimo
ter entre eles o Martinho.
Leituras
Ele tinha suas preferências, lia alguma coisa de ficção
e de história, mas lia mais diretamente sobre a arte.
Reconhecimento
local
Ele era mais conhecido como o pintor dos parlamentares e dos governadores.
Num certo momento achavam até estranho um homem que tinha estudado
em Paris estar envolvido com esse grupo de malucos, que éramos
nós. Ele nos ajudou, mas em contrapartida nós também
o ajudamos. Agora vou deixar de falsa modéstia (riso), nós
o incentivávamos: “Ô Martinho, já sairam três
números da revista e tu não trouxestes mais nada para a
gente? Que tu tens por aí? Faz um desenho para nós. Dá
um desenho que tu tenhas feito”. Às vezes tínhamos
que pedir, outras vezes ele chegava e dizia: “Agora tenho um desenho
para vocês”. Consultando a “Sul”, acredito que
a gente tenha, entre capas e miolos, uns oito desenhos dele. Depois publicamos
“Contistas Novos de Santa Catarina”, pela primeira vez um
projeto de juntar o pessoal novo que estava fazendo ficção.
Cada conto era ilustrado por um jovem artista plástico. A única
exceção foi o Martinho, que ilustrou o meu conto chamado
“Rinha”.
Profissionalismo
O que me encanta no Martinho é a consciência profissional.
Qualquer tema que ele trata, seja uma marinha, uma natureza-morta, uma
paisagem, uma figura humana é sempre com consciência profissional
de que tem a obrigação de fazer o melhor do melhor dentro
das suas possibilidades. Ele dominava não só o desenho,
mas também a cor, sabia como jogar a cor. Essa consciência
que ele tinha, deve ser a marca de todo o artista, seja ele de que área
for.
O
centenário
Fui à abertura da mostra no Masc. Naquele dia, tinha tanta gente
que eu não tive nem coragem de circular. Quero ir lá com
calma, para ficar duas, três horas. Vi uma meia dúzia de
quadros, mas não tive nenhuma idéia a respeito do que foi
selecionado, porque no livro vão estar cerca de 500 trabalhos e
ali foram selecionados 120. Ao mesmo tempo, estão ocorrendo mais
duas mostras de desenhos, uma no Cruz e Sousa e outra no Victor Meirelles.
A comissão do centenário, composta de pessoas apaixonadas
por pintura e pela obra de Martinho, deve ter feito uma seleção
mais representativa possível das várias tendências
de sua pintura.
A
última palavra
Essa exposição precisaria ser levada já nem digo
para outros municípios, mas pelo menos para o Rio e São
Paulo. Pelo que fiquei sabendo a tiragem do livro vai ser de mil exemplares,
é uma pena não terem conseguido recurso, porque a medida
que aumenta a tiragem diminui o custo. Se tirassem 2 mil exemplares diminuiria
o custo. O preço, não sei como é que vai ser ser,
se será vendido, poderia ser um pouco menor e atingir um público
maior. Esse álbum deveria ser mandado para algumas galerias. Lembro
que, além do “Santa Catarina Terra e Gente”, no qual
se fez questão de se dar um capítulo sobre artes plásticas,
existe um livro publicado pelo Léo Christiano, um pequeno editor
do Rio de Janeiro que nos anos 70 fez um álbum sobre o Martinho
patrocinado pela Perdigão. A seleção é muito
boa, a introdução do Walmir Ayala. Além disso não
existe mais nada. Coisa curiosa, quando assumi a direção
da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (EdUFSC), o Léo
Christiano perguntou se eu não queria comprar alguns exemplares,
porque a primeira coisa que fiz foi abrir um posto de venda para a editora.
Comprei talvez quase todo o saldo, menos de dois meses não sobrava
um único exemplar. Isso mostra o interesse sobre a obra. O importante
é que a mostra do centenário não fique em Florianópolis,
que o governo catarinense, do Rio, de São Paulo ou federal, alguém
tenha sensibilidade. Não é fácil levar uma exposição,
há o custo do transporte, do seguro, mas era importantíssimo
que os trabalhos saíssem de Santa Catarina para tornar mais conhecido
um artista da importância do Martinho de Haro. Repito: se tivesse
continuado no Rio seria um nome tão representativo quanto o Di
Cavalcanti, um Pancetti (1902-1958), um Iberê (1914-1994), um Portinari
(1903-1962) e tantos outros.
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Salim Miguel
Foto: Gill Konell |