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UM PONTO E OUTRO - Fale um pouco sobre a sua biografia e a sua trajetória.
Gostaríamos que você situasse seu trabalho atual relacionando
com trabalhos ou reflexões anteriores.
RENATA DE ANDRADE - Fui estudar arte relativamente tarde, com 29 anos,
depois de partir do Brasil. Fiz a academia Rietveld de Amsterdam, uma
escola com tendências e estudantes internacionais, e durante todo
o período do meu estudo fui ilegal na Holanda. Acho que isso influenciou
muito a minha escolha de material: como no resto do mundo, os exilados
'não existem' socialmente - não tem direitos, segurança,
moradia, etc. Quanto menos forem vistos melhor. Porque era muito pobre
comecei a usar coisas achadas nas ruas como 'motivos' para minhas naturezas
mortas (sou formada em pintura), mas logo descobri a beleza e o valor
desse material descartado.
UM
PONTO E OUTRO - Você possui alguma referência específica
para o seu trabalho? Algum artista e/ou teórico com os quais você
dialoga.
RENATA DE ANDRADE - Gosto do trabalho de Morandi, sua forma de aproximar
as coisas - simples, direta e despojada. Gosto de Duchamp. E de lixo,
pelos extremos que me propõe. O que vem da tv, novelas, seriados,
filmes; histórias em quadrinhos, graffiti. Gosto de Gabriel Orozco,
Francis Alys, Katharina Grosse…
UM PONTO E OUTRO - Comente um pouco os procedimentos de sua pesquisa:
você faz muitos desenhos preparatórios? Como você elabora
a composição? Como é o processo de construção
dos trabalhos?
RENATA DE ANDRADE - Meu processo de criação é bem
intuitivo, o acaso é muito importante no meu trabalho. Tudo que
faço, encontro, coleciono - tudo pode ser visto como um produto
final. As vezes me sinto como se fosse apenas um instrumento das coisas
que monto - minhas pinturas, instalações, colagens, 'assemblagens'.
É um pouco como na improvisação do jazz: as imagens
'montam-se' elas mesmas, e eu não passo do instrumento dessa ação.
Às vezes componho de uma forma simples, semi-lógica: objetos
pequenos para composições pequenas, finos para trabalhos
finos, grandes para etc.; mas o caos também me atrai muito. Tudo
é possível, dependendo do resultado que se apresenta ou
se deseja. Faço também rascunhos usando o programa Photoshop,
para montar instalações imaginárias. Quanto ao graffiti,
reproduzo os rabiscos que faço ao lado do telefone, por exemplo,
ou os pequenos retratos copiados dos jornais.
UM PONTO E OUTRO - Qual é o papel da fotografia no seu
trabalho?
RENATA DE ANDRADE - Uso fotografia para documentar 'instalações
alheias' (lixo e objetos abandonados nos espaços públicos
e privados). Essas fotos podem se tornar um detalhe numa instalação
maior (junto ao lixo, mural, graffiti, etc), ou podem ser vistas separadamente,
como um trabalho em si. Acho muito interessante esse diálogo entre
o real e a representação - as duas e três dimensões
comentando sobre a mesma coisa.
UM
PONTO E OUTRO - Fale sobre as relações entre o seu trabalho
e a pintura.
RENATA DE ANDRADE - As leis pictoriais - composição, cor,
linha, forma, estrutura, etc. - são para mim muito importantes.
Apesar de construir instalações, minha aproximação
continua sendo através da pintura, onde as cores e a composição
comandam. Na verdade, continuo a fazer pinturas tri-dimensionais –
só que mais ambiciosas, porque anseio o espaço em si, assim
como o espaço público, as ruas.
UM PONTO E OUTRO - Fale sobre o seu processo, o acúmulo,
apropriação e a montagem de seu trabalho.
RENATA DE ANDRADE - Primeiro fazia pinturas a óleo com os objetos
achados, depois comecei a colar coisas nas superfícies dos quadros.
Logo passei a usar os objetos eles mesmos de uma forma pictorial, criando
instalações. Para mim, as coisas abandonadas nas ruas transformaram-se
em esculturas quando comecei a transportá-las ao meu ateliê.
A montagem se dá de modo simples, intuitivo, dependendo das cores
e das formas usadas. Geralmente combino os objetos achados com fotos ou
cartazes (de entulho) e graffiti (tinta spray: manchas coloridas e rabiscos,
mas também uso máscaras de figuras recortadas e retratos
tirados dos jornais).
UM
PONTO E OUTRO - Como se dão as escolhas? Como você escolhe
os materiais e as cores? Você escolhe o lixo levando em conta alguma
tipologia ou critério classificativo?
RENATA DE ANDRADE - Gosto de cores fortes, de formas definidas. Meu sótão
esta repleto de plástico, isopor, madeira, cartolina, caixas, tapetes,
tudo que não se desfaz organicamente considero material a ser usado.
As possibilidades são muitas, não só com relação
ao material mas também quanto ao contexto – o espaço
onde monto meu trabalho, seja ele público ou privado.
UM PONTO E OUTRO - Como é o processo de limpeza do lixo?
RENATA DE ANDRADE - Limpo os objetos dependendo do resultado desejado.
Por exemplo, houve uma época em que usava muito garrafas de plástico
(grandes e pequenas) para montar esculturas, mas as etiquetas atrapalhavam
a experiência da cor, da forma, do tamanho – as marcas e o
texto transmitiam uma mensagem para mim indesejada. Portanto limpava todas
as garrafas. Quando os objetos que uso ou monto são pequenos, ‘de
mesa’, geralmente os limpo. Objetos grandes não limpo, mesmo
porque passei a considerar o pó acumulado como parte do caráter
dos mesmos. Nunca coleto coisas imundas, onde alguma forma de ‘vida’
orgânica esteja ocorrendo (mofo, etc).
UM
PONTO E OUTRO - Você em seu trabalho procura falar do lixo em si
ou do seu descarte pelo homem ou pela indústria?
RENATA DE ANDRADE - Esses dois aspectos me ocupam – ou melhor dizendo:
me preocupam. O imenso lixo produzido, abandonado, reciclado, revivido.
As implicações da superprodução, as relações
entre a riqueza e a extrema pobreza, o valor perdido mas ainda existente,
a beleza não reconhecida ou não vista.
UM PONTO E OUTRO - Como você vê a questão do
lugar do lixo e o lugar da obra? Como estas situações se
relacionam com o seu trabalho?
RENATA DE ANDRADE - Desde que comecei minha pesquisa visual me ocupo com
a tensão entre o que é e o que não é arte
– o contexto, a cultura, a linguagem do modernismo. Usar lixo como
material foi para mim um passo natural por causa do rumo que minha vida
tomou, mas nesse momento não consigo pensar em melhor material
para trabalhar minhas idéias. Na verdade, meu discurso se refere
ao fato de que tudo em torno pode ser assimilado como arte, é só
uma questão de abrir o olhar, a maneira de ver as coisas. A instalação
no museu é como a instalação na rua, a diferença
é o olhar direcionado ou não. Num futuro plauzivel, as pessoas
veriam qualquer lixo acumulado como uma obra minha!
UM
PONTO E OUTRO - Você compra alguns materiais para agregar ao trabalho?
Quais?
RENATA DE ANDRADE - Só compro os suportes e as tintas que uso:
linho, tinta a óleo, tinta spray, sacos de lixo. Além disso,
faço uso da fotografia e de cartazes impressos. Tento comprar o
mínimo possível, e estou procurando uma alternativa para
a tinta spray, pois é um produto muito danoso para a natureza.
UM
PONTO E OUTRO - Como você pensa o lixo e o grafite nesses dois contextos:
o brasileiro e o europeu?
RENATA DE ANDRADE - O graffiti holandês é, na minha opinião,
um de identidade, de usar palavras para determinar domínios e criar
uma estética exuberante. O brasileiro já acho mais um de
contador de histórias, faz muito mais uso da ilustração
de uma forma literal e/ou abstrata, apesar do aspecto da identidade também
estar presente de forma mais simples. Há no Brasil mais variedade,
eu acho, não só no uso de máscaras, cores, mas das
formas – com ou sem texto. A intensidade do graffiti, a maneira
anárquica como toma o espaço publico, isso é o que
mais me atrai nessa forma de arte.
UM PONTO E OUTRO - Como você está vendo a idéia
de montar esta exposição no Museu Victor Meirelles?
RENATA DE ANDRADE - Estou muito curiosa com a resposta do público,
ainda mais porque o MVM é um museu elegante, com sua arquitetura
colonial. Esse diálogo me parece muito interessante, rico.
UM
PONTO E OUTRO - Você já tem algo premeditado para esta exposição?
RENATA DE ANDRADE - Quero montar na sala do museu alguns murais com lixo,
fotos e graffiti, além de colocar uma série de retratos/graffiti
nas paredes. Fora do museu, nas ruas, pretendo montar uma ou duas instalações,
da mesma forma. Se possível, gostaria de montar uma dessas instalações
no próprio muro externo do museu. Mas estou aberta para outras
possibilidades.
UM
PONTO E OUTRO - Como você pensa a apresentação do
trabalho no espaço expositivo? O que você poderia comentar
sobre a montagem específica para esta exposição?
RENATA DE ANDRADE - Sempre uso o lixo reciclável que o museu, as
instituições, e o pessoal envolvido coleciona para mim no
período antecedente às exposições. No caso
do MVM, a idéia original era a de usar a sobra de material usado
nas obras de restauração programadas para junho de 2007,
criando assim uma ‘obra’ organicamente relacionada a esse
momento do museu. Mas como essas obras foram adiadas, e considerando o
pouco tempo disponível para o museu coletar o material necessário,
farei uso do lixo que a cidade coleta. Normalmente eu entro em contato
com os projetos de coleta urbanos e compro o material que acho necessario
para a montagem da exposição.
UM
PONTO E OUTRO - Você pretende trazer algum material de Amsterdã?
RENATA DE ANDRADE - Quero levar alguns dos retratos/graffiti que tenho
feito nos últimos meses. São reproduções de
retratos que coleciono dos jornais, que desenho e pinto em caixas de papelão
de frutas e legumes, estas coletadas nas ruas. Essas caixas eu abro, desmonto,
e uso como base para meu discurso pictorial – inclusive o design
e as cores próprias das caixas. Como já mencionei, sou uma
pintora. Uma das minhas especialidades é a pintura de retratos.
Esses retratos/graffiti que estou pintando agora estão destinados
a retornar ao domínio público, ou seja, quero (re)colocá-los
nas ruas, como parte de instalações, devolver ao meu público
aquilo que tomei. O nome da exposição no MVM é gratis:
todo o trabalho exposto no museu (com a exceção de um retrato/graffiti)
será devolvido às ruas.
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