1.
Pendurar horizontes de papel nas vidraças e contemplá-los
com devoção para um retrato. 2. Esperar que da estampa
de um pôr-do-sol irradie certa luz avermelhada capaz de aquecer
o dentro de casa nublado. 3. Sentar-se no chão da sacada
para fitar o horizonte numa fotografia azul-desbotado (e alienar-se
do que passa na cidade). 4. Fingir ignorar o mar diante de um livro-escudo.
5. Desejar o mar diante de um livro-portal. 6. Emendar folhas de
paisagem em outras paisagens. 7. Forjar cenas e recantos de segunda
natureza para estar. (E tudo se conforma na superfície da
fotografia).
(texto da artista, apresentado no convite da exposição
2ª natureza, Museu Victor Meirelles, 2007)

Em
casa.
Ao
acordar espio o dia e fecho a cortina. O panorama de janelas comerciais
esvazia minha idéia de paisagem. É neste vão,
entre os escritórios e o idealizado, que ás vezes
instalo horizontes de papel.
No quarto, a cortina verde de tecido fino permite a luz do dia dentro
e me resguarda da vista de escritórios. O verde quase amarelado
que o recinto assume é confortante. A cortina “black-out”,
que fica escondida atrás da verde, me desagrada por ser de
plástico. Não me livro dela para garantir o sono (o
centro da cidade fica muito aceso à noite).
Na sacada, me alegro com a floreira. As mudas que planto não
florescem como eu gostaria. Só as babosas nunca se ressentem
com períodos sem água. Isso me tranqüiliza, e
garante o verde sempre à vista. O concreto aparente ocupa
a extensão horizontal da sacada e sobe até a altura
da cintura. Quando me sento só vejo cinza escuro.
Do outro quarto (escritório doméstico), vê-se
bem de perto algumas salas comerciais do edifício vizinho.
As janelas são amplas lá, e me fazem cúmplice
da rotina de trabalho alheia. A veneziana deste quarto é
escura, por isso só a fecho em dias muito claros (é
triste trabalhar na penumbra ou sob luz fria quando é dia).
Fotografias de céu e mar me confortam, como as flores que
gostaria de ter na sacada. Contemplar horizontes tranqüilos
e inacessíveis é um exercício meditativo que
me faz feliz.
Na praia.
Ouvir o mar faz bem ao espírito. Sua imagem ganha
potência quando o escuto. Ultimamente não consigo presenciá-lo
(mesmo diante dele), apenas a sua imagem.
Na sacada de casa pendurei um pôster desbotado de paisagem
marinha e o contemplei com devoção para um retrato.
Emocionei-me diante de um livro com fotografias de viagens marítimas
para o mesmo fim.
Impossível contemplar o mar sempre que se deseja.
No trabalho.
Moro
e trabalho no 8º andar de um edifício no centro da cidade.
Daqui da “ilha” vejo a cidade lá em baixo e escritórios
ao redor (não vejo o mar). Fotografo improvisando cenas que
romantizam o convívio neste ambiente.
Nos últimos
meses, as idéias que geram trabalhos tomam forma a partir
do ócio doméstico: tardes de leitura na rede, cafés
na sacada apreciando a vista, conversas com os gatos, cuidados experimentais
com as plantas...
Estar
conceitualmente cercada de mar tem me intrigado. Certa temporada
em outra cidade me fez ver que esta condição faz parte
da minha idéia de mim mesma.
Habitar
uma ilha é uma imagem muito poética.
Comecei
a fotografar o mar na tentativa de potencializar a presença
assumida por ele na minha concepção de mundo privado.
Tento trazê-lo pra casa com imagens. Estreitar a convivência.
Na superfície da fotografia muitos anseios se aquietam.
2005: Mestre em Artes Visuais, Universidade Federal do Rio Grande
do Sul - UFRGS, Porto Alegre, RS.
2001: Bacharelado em Artes Plásticas, Universidade do Estado
de Santa Catarina - UDESC, Florianópolis, SC.
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