"Não
basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio"
Alberto Caeiro
Aprendi
com a Fabiana que as janelas não limitam, mas enquadram.Quando
me aproximo de janelas, lembro dela. O recorte na paisagem, cortinas
sem paisagem, montagens de paisagens. Conheci Fabiana na Universidade.
Lembro de que no final do curso, Fabiana num gesto preciso com um
estilete afiado recortava fotografias de um mesmo prédio,
realizadas a partir da sua janela, e as emendava. Penso que Fabiana
continua fazendo emenda de paisagens. Há algo entre ela e
cidade que se configura pelo enquadramento da janela e visor de
uma câmera ou visor da câmera como janela. Durante um
período posterior de nossas vidas nossas janelas se alinhavam.
Morávamos sozinhas em Porto Alegre. Ela no terceiro e eu
no sétimo andar do mesmo prédio. A altura configurava
cidades diferentes no bairro Cidade Baixa. A solidão nos
aproximava. O trajeto intenso entre a minha casa e a dela era intermediado
pelo elevador, que conectava as alturas. E ela, naquele momento,
intrigada com as distâncias, fotografias, cidade, paisagem,
janelas e trajetos a partir de pensamentos gambiarras elaborou uma
outra janela a partir das fotografias de nossas janelas. Fico intrigada
com a habilidade de Fabí para gambiarras. Mas diante do seu
último trabalho, me sinto envergonhada. Pareço um
voyer. Um voyer que entre as cortinas de um apartamento no 8º
andar ou numa praia espia uma menina vestida de azul contemplando
imagens de paisagem. Parece uma menina doce. É constrangedor
invadir um momento imaculado, tão dela, sozinha com seu livro
portal. Mas de repente me lembro que todo aquele ambiente foi arranjado,
e daí gosto do gosto do engano, da fotografia, da armadilha
sedutora de Fabiana.
Letícia
Cardoso de Brito
artista
Conheci a Fabiana em 2002 durante uma viagem a Belo Horizonte da qual
também participaram outros artistas, como a Glaucis de Morais
e a Letícia Cardoso (e surgiram daí algumas histórias
engraçadas sobre as pousadas de Ouro Preto). Alguns dias
depois, reencontramo-nos na seleção para o mestrado
em Porto Alegre e nos tornamos então colegas. Nestes cinco
anos voltamos mais uma vez a ser colegas, desta vez como professoras,
por um breve período, na UDESC, em Florianópolis.
Durante o período de Porto Alegre, Fabiana trabalhou intensamente,
chegamos a realizar uma exposição juntamente com a
Glaucis na Pinacoteca da Feevale, “Entre dois Pontos”,
e o trabalho “Indicadores” durante um dos Fóruns
Mundiais. Acredito que o mestrado e também o fato de estar
sozinha em uma cidade diferente contribuiu em muitos sentidos ao
trajeto tomado pelo seu trabalho. A relação entre
a artista, a fotografia, a cidade, o seu espaço (mesmo que
pequeno!) ficou cada vez mais evidente, numa espécie de conversa
irônica com as baixas tecnologias (neste período ela
explorou o slide, um sofisticado backlight de
luz de janela e, claro, a curiosa máquina fotográfica
Autostar Pocket) o que agora parece reverberar nestes novos
trabalhos apresentados em 2ª Natureza, uma característica
que é tanto da personalidade da artista quanto de seu trabalho,
este humor sutil e auto-irônico.
Mariana
Silva da Silva
artista e professora do curso de Artes Visuais da Universidade
de
Caxias do Sul
Conheci
primeiro a obra e depois a artista. Se não me engano
foi
no MASC e a obra era o “Auto-retrato na torre”.
Lembro
que fiquei bastante tempo tentando descobrir um significado.
“Mas
que diabos se quer com essa torre?”. Gostei muito porque
me
intrigava. Algum tempo depois foi realizada, no mesmo
espaço,
a exposição Pretexto Poético. Estes
trabalhos
também circularam por várias cidades de Santa
Catarina.
Fabiana era uma das artistas presentes nessa
exposição
itinerante. Eu estava envolvido nesta
circulação.
E houve uma mesa crítica para analisar os
portifólios
e propostas de exposições de artistas
catarinenses,
que participariam de um circuito de artes realizado pela
Instituição
na qual trabalho. Não lembro exatamente o ano, mas era
2003
ou 2004. A Fabiana era uma das pessoas que tinham sido
escolhidas
para a análise. Foi a primeira vez que conversei e
conheci
mais a artista do “Auto-retrato na torre”. No ano
seguinte,
em outra mesa de análise, o trabalho da Fabiana foi
selecionado
para circular as cidades catarinenses, durante três
anos.
Era a exposição Segredos da Boa Fotografia em
conjunto
com uma oficina sobre fotografia artística. Realizar
exposições,
concertos, espetáculos com artistas jovens é
diferente
daqueles que têm uma trajetória. As
preocupações
são maiores, sim. Mas na primeira
exposição
e oficina realizadas pela Fabiana, os artistas e o
público
manifestaram-se de forma muito favorável ao trabalho.
Assim
continuou na segunda cidade, na terceira... As pessoas falavam
que
Fabiana tinha um trabalho consistente, uma boa base
teórica
e uma forma ímpar de lidar com o público. E
aconteceu
de a Fabiana ser convidada para fazer parte da equipe de
assessores
do projeto Pretexto. No início, nas primeiras cidades
em
que ela foi, havia o acompanhamento do artista e assessor
Fernando
Lindote. Hoje aqueles Pretextos que têm enfoque na
fotografia
são realizados pela Fabiana, sempre com trabalho
consistente.
Fabiana é a artista da obra que me intriga. A Fabiana
também
é marioandradina: aquela que vive nas incursões
aos
campos e arredores desta província de Santa Catarina,
num
trabalho sacerdotal de auxiliar a pensar e ver a obra de
outros
artistas. E, nestas viagens, ela descobre a sua própria
obra;
trazendo uma especiaria colhida no Oeste, uma idéia
descoberta
no Sul e novo mar azul fotografado no Norte.
Valdemir
Klamt
Setor de Cultura - SESC SC
Olhar a paisagem da janela, abrir e fechar a cortina. Daquele ângulo
não se vê o horizonte. É deste ponto de vista
que Fabiana inventa paisagens para serem contempladas.
Desde que conheço a Fabiana, há oito anos, quando
foi aluna do curso de Artes Plásticas na UDESC, uma coisa
me chamava e me chama muita atenção, sua capacidade
de inventar e rearranjar coisas. Este gesto de “gambiarriar”
aparece agora nestas paisagens que descortinam uma outra possibilidade
de contemplar o horizonte no mar.
Nara Milioli
artista e professora do curso de Artes Plásticas do
Centro
de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina
Posso olhar para os trabalhos inicias de Fabiana e perceber um esforço
em dominar meio e linguagem ao mesmo tempo em que escolhe algumas
questões a partir das quais ela poderá estabelecer
um plano de discussão em seu processo.
Os trabalhos que vão sendo apresentados nos anos seguintes
parecem perseguir com afinco um entendimento paulatinamente mais
sofisticado do seu repertório de problemas. Na distância
entre uma obra e outra, as voltas da linguagem realizadas por Fabiana
se esgarçam com delicadeza, mas de um tipo de delicadeza
analítica e corrosiva em relação ao objeto
focado por seu pensamento, não raro ela mesma e seus métodos
de construção da imagem. Nesse sentido Os Segredos
da Boa Fotografia é um momento agudo de avaliação
de seus meios.
Os trabalhos posteriores apresentam um tipo de maturidade muito
particular, como se depois do enfrentamento d'Os Segredos, Fabiana
retomasse a produção com um outro tipo de sabedoria:
mais distanciada e irônica. Um humor novo surge cada vez mais
de suas imagens. E nunca como agora, ela aparece tão ausente
em seus auto-registros.
Fernando Lindote
artista
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