Eu
conhecia e admirava muito o seu trabalho. Quando fiquei viúvo,
ela veio preencher um vazio. O que começou como uma admiração
profissional foi se tornando uma coisa íntima. (...) Ela me ensinou
muito mais do que eu a ela. Diante do trabalho dela, tive que repensar
o meu próprio trabalho.
Marcelo
Grassmann
artista

A
precisão do traço e a temática de Ana Elisa são
coisas raras hoje em dia. Seus desenhos e suas gravuras são um
todo bem acabado e rico em detalhes e significados. Seus bichos existem
para a construção do acervo de algum Gabinete de Curiosidades
- impactantes e suavemente tramados numa linguagem transcendental e mística.
Suas paisagens têm a precisão de um cenário ideal.
Mas, em ambos os enfoques e desejos, são restos de um mundo perdido,
fixados no papel. Documentos fiéis, mas cheios da fantasia de uma
artista maior.
Antonio
Carlos Abdalla
curador

Em
linhas sensíveis gravadas com delicadeza e determinação,
Ana Elisa nos coloca frente a uma revelação: a ânsia
de deter pela compulsão gráfica cada encantamento seu diante
dos momentos mórbidos proporcionados pelos bichos que captura e
registra sobre chapas de metal.
Nos
atiça a interrogações sobre a vida e sobre o que
fazemos dela, sobre a morte e como nos apoderamos dela quando o lado observado
é o mais frágil.
Sandra
Favero
artista, pesquisadora e professora de gravura do Centro de Artes da Universidade
do Estado de Santa Catarina

Às
vezes me detenho por muito tempo ao fazer atividades simples. Por causa
dos inconvenientes que isso me traz acabo pensando regularmente no porquê
disso. E me veio em mente em um dia desses meu avô trabalhando.
Ele era carpinteiro. Me lembro dele olhando de perto e alisando a madeira
com as mãos; depois colocando o serrote diante do rosto , empunhando-o
como uma arma para olhar se ele estava alinhado e em seguida “dedilhando”
os dentes da ferramenta para ver se estavam bem afiados. E esse tipo de
ritual se repetia em cada etapa do trabalho e se estendia além
deste. Então me dei conta de como esse modo dele de viver e olhar
o mundo me influenciou. Acho que essa espécie de prática
contemplativa (por que hoje me parece mais um exercício de sensibilidade
do que preocupação técnica) funciona como uma via
de acesso às coisas.
No desenho acho que essa atitude pode ser valiosa, por que gera a possibilidade
de experimentar que essa via de acesso tem mão dupla. As coisas
nos acessam também. Apesar de toda a abstração que
o desenho pode envolver ele nos liga fortemente ao mundo. Pensei muito
nisso ao ver os trabalhos da Ana Elisa Dias. No como e em quanto essa
experiência dela com esses seres a afeta. Por uma questão
de experiência própria fiquei querendo entender melhor o
processo de desenhar e guardar isso que pode ser entendido à primeira
vista apenas como mórbido mas que envolve um contato íntimo
e respeitoso com esses seres. A aceitação dessa diferença
(e seus desdobramentos de similaridade), entre nós e um inseto
ou uma larva ou um animal, entre a continuidade frágil do ser vivo
e a do corpo morto, leva a uma espécie de sentimento de admiração.
Palavra que pode parecer muito pomposa mas quando associada, em uma espécie
de subversão, aos restos, ao ordinário, ao mínimo,
adquire outro sentido. Parece uma experiência que pede humildade
do olhar.
Diego
Rayck
(artista plástico, ilustrador e professor colaborador de gravura
do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina)

...
desenho para não perder, aprisionando no papel aqueles ou aquilo
que de outra forma desaparecerá.
Começo
este breve texto com um depoimento da artista, a partir de algumas questões
levantadas pelo grupo, tendo como foco principal o contato com os ‘modelos’.
Na realidade, esta relação com os insetos e animais que
a artista representa em suas gravuras e desenhos, norteia de forma significativa
minha reflexão, assim como boa parte das discussões do grupo,
que se indagava sobre a forma como Ana Elisa se aproximava dos animais,
como os escolhia. Perguntávamos nas reuniões, se a artista
fazia desenhos de observação ou de memória, se guardava
os animais, se os desenhava vivos ou mortos, se os fotografava. Acredito
que levantar algumas destas questões sobre a relação
com os modelos e os procedimentos, seja importante para pensar sobre seu
trabalho. A relação com os animais, em especial, me parece
uma via de acesso fundamental ao seu processo.
Questionada
sobre a forma como escolhe os animais, a artista afirma que em geral os
modelos se apresentam para o serviço: na chácara onde vive,
os animais morrem a vista, próximo da casa, são atropelados,
se estatelam nos vidros das janelas. A artista observa, desenha e recolhe
estes pequenos corpos. Através do desenho, a artista acompanha
até mesmo o processo de decomposição de certos animais,
como descreve o processo de observação da morte de um pequeno
porco espinho, com a seqüência de insetos que se dispôs
ao redor da carcaça. O desenho minucioso, obsessivo, a
vontade de achar tradução em linhas para os volumes das
criaturas. A artista salienta o desenho como disciplina de trabalho, como
busca da imagem sempre fugidia. No entanto, mais que um desenho
bem feito, o desenho parece se configurar como um exercício
de olhar. Desenhando até mesmo com auxilio de uma lupa, a artista
inscreve em si mesma o encanto das formas, pêlos, volumes, detalhes,
o desejo de reter o que de outra forma desaparecerá. Mais do que
perpetuar na imagem desenhada, perpetuar em si mesma este olhar cuidadoso,
que deseja ver melhor, de mais perto, com mais atenção.
Olhando as imagens, lendo os depoimentos da artista, penso em como eu
mesma guardo coisas, como tento ver melhor as traças, as peles
de cigarras. O desejo de reter a presença das coisas, dos seres,
a necessidade de lidar com as mortes, as perdas.
Da mesma forma, relaciono a forma como a artista Julia Amaral, que participa
de um diálogo com a Ana Elisa nesta revista, guarda os besouros
e os transforma em jóias. Penso na maneira como o artista Diego
Rayck, a partir de seu depoimento e do convívio próximo
com o seu processo de trabalho, desenha, silencioso, olhando por horas,
com o mais refinado olhar, as coisas que desenha.
A partir de algumas dessas relações, penso que desenhar
possa ser uma forma de contato, de aproximação. Uma forma
de conhecer, de se deter no mundo. Entendendo a palavra deter, tanto no
sentido de demorar-se, como de conservar, reter. Penso que o desenho de
Ana Elisa, mais que disciplina e preparação para a gravura,
possa ser um pretexto para este olhar mais depurado, mais cuidadoso. É
um pouco disso que Diego Rayck comenta, quando lembra da relação
do avô com as ferramentas e os materiais de trabalho: um olhar cuidadoso.
Tento relacionar esta experiência de olhar com meu próprio
processo de trabalho, especialmente quando passo a guardar e apresentar
‘coisas’ no espaço expositivo, e não fotografá-las.
Penso em como é diferente ter na mão as traças, a
poeira e tenho também na memória um outro trabalho da artista
Julia Amaral, uma fotografia de uma raposa morta na piscina. A partir
do impacto com esta imagem, sobretudo, tento comparar a experiência
da fotografia, pois a fotografia, como o desenho, também é
uma pratica. Começo a pensar na forma como Ana Elisa suporta o
cheiro, a presença angustiante da morte, enquanto desenha. Como
conciliar nesta experiência do ‘real’, os odores, as
larvas que fazem a cabeça da cachorrinha mexer e este olhar atento,
minucioso, demorado?
A experiência do olhar mediado e, sobretudo, acelerado da fotografia,
se contrapõe a esse olhar demorado do desenho, experiência
entre o olho e a mão. E pensando em como seria diferente fotografar
estes animais mortos, me parece ainda mais relevante pensar no desenho
como forma de aproximação, de introjeção dessa
experiência com a morte. Ainda que a fotografia esteja indissociavelmente
associada a morte, especialmente a partir das reflexões de Barthes,
penso na fotografia como ausência, paradoxo entre a conexão
e a perda do referente. E penso no corte espaço-temporal, na distância,
com que a fotografia opera (e que se contrapõe ao seu princípio
indiciário). Como o teórico Phillippe Dubois ressalta, o
corte espaço temporal marca um efeito de abalo, de defasagem, de
vazio, onde o índice vinha marcar um efeito de certeza.
Dessa forma, por mais vinculada fisicamente que esteja ao seu referente,
a fotografia permanece absolutamente separada dele. Entre a imagem e o
referente existe uma fissura. Ao tentar salvar o referente do desaparecimento,
a fotografia o faz desaparecer. O desenho, no entanto, articula de forma
inteiramente diferente estas relações com o referente: ao
mesmo tempo que não possui nenhuma fisicalidade com o objeto ou
ser representado, pois é ‘coisa mental’, a experiência
de olhar, de traduzir, de se aproximar, implica numa depuração
do olhar. Na possibilidade, ou potencialidade, de inscrição
do ‘real‘ em si mesmo, como se a artista procurasse gravar
por dentro, não no papel ou na matriz, mas em si enquanto experiência.
Como se fosse possível perpetuar, guardar em si mesma a fragilidade,
a perda e a morte irremediável de todas as coisas.
Aline
Dias
artista, integra a equipe do Museu Victor Meirelles
e da revista Um ponto e outro
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