Os
rememorantes
Também
chamados de os duendes da noite, os rememorantes são animais dotados
de uma inimaginável memória.
Vigiam o sono dos demais seres que habitam este nosso mundo acerbo, graças
a uma característica que faz deles, dos rememorantes, únicos
sobre o planeta - não dormem, nunca dormiram, e, porque sejam perenemente
insones, podem penetrar nosso sono sem se deixarem contaminar por sua
impossível matéria.
Os rememorantes possuem ainda outra qualidade essencial ao seu ofício
- alcançam perscrutar, mesmo no sono mais embrutecido, os sonhos
que ali morem e se movimentem com esta graça inquieta que costuma
ser, dos sonhos, o seu maior triunfo.
Tudo imprimem à formidável memória, os rememorantes,
e são eles que nos assopram ao ouvido excertos de histórias
contadas por sonhos esquecidos ou mesmo o sanguinolento entrecho de um
pesadelo para sempre soterrado pelo que havia nele de mágoa e escasso
abraço.
Nada temem da natureza dos sonhos, e nem poderia ser de outra forma, pois,
detalhe supremo, os rememorantes se alimentam deles e só nos dão
a ver sobras sonhadas, lapsos, fragmentos, fluidos recortes e vagas esquinas
de um sonho que, sabemos, com rigorosa certeza, ter sido bem mais do que
o inútil sem nexo, por exemplo, de um olho boiando na água
ou o simulacro de asas com que ainda uma vez tentamos e não conseguimos
voar.
E porque se alimentem de nossos sonhos, vão por aí, ruminando-os
o tempo inteiro, justamente naquelas manhãs em que, ingênuos,
nos deixamos enganar, pensando que há muitas noites nada sonhamos.
É com eles que os rememorantes se refestelam, gordas jibóias
de nossa talvez mais sublime quimera.
Os
zembras
Ah,
meu amor, os zembras!
Recordo que lutam sem trégua contra o mal, como se fosse possível
vencê-lo, a ele, o mal que se engasta na pedra igual que irremovível
e deletério limo. Meu amor, os zembras!
Quase disformes, à primeira vista não possuem sistema defensivo
a exemplo de garras, chifres, peçonha ou dentes. Os zembras contam
exclusivamente com a força de persuasão, não pequena,
com que a Natureza os dotou a fim de que não pereçam cá
neste vale de lágrimas.
São porém frágeis ao extremo e dificilmente alcançam
vencer quem os intente destruir.
Estes farrapos tocados pelo vento, vês? São carcaças
de zembras voando à solidão dos asfaltos desesperados, lembranças,
espectros, meros papéis.
De
Wilson Bueno, em "Jardim Zoológico" (Editora Iluminuras/1999)
Aranhas
Tarde
da noite as vigio, cuidadosamente, com a paciência de um voyeur
taxideminista.
São tantas as pernas e os pêlos, horrendos ambos como sucumbir
num fosso-de-elevador, que parecem guardar, elas, as aranhas, a vocação
equilibrista de um polvo amestrado pelo Gran Circo Excélsior.
Imagino, daqui, como é que bate nelas o coração,
e sofro por saber que, prontas ao bote, são como serpentes - o
mesmo e rancoroso veneno que você destila, pelo canto do lábio,
quando me joga na calçada.
Colibris
Iguais
a estes, indefiníveis, a não ser pelo seu lado de vento,
caídos da lágrima de um haikai de Kobaiashi Issa, os colibris
são cor em movimento. Flores? O teu sorriso queima a tarde.
Iguais a estes não há nem tem nem se dá nome.
Existem outros, mas - sem exceção - todos perfeitamente
explicáveis.
De
Wilson Bueno, em "Manual de Zoofilia" (Editora Noa Noa/1991)
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