As
formas originárias da arte
Susana Scramim
As
aquarelas que Mariana Palma apresenta nesta exposição levam
a sério o princípio da função da imagem como
potência dialética. Isso ocorre mediante o uso de um princípio
metodológico na criação de suas imagens: o da montagem.
Sabemos que a imagem enquanto potência dialética envolve
um procedimento de montagem e desmontagem do curso do contínuo
da história, isto é, ir ao encontro de seus acidentes, de
suas bifurcações, de suas descontinuidades, de seus torvelinhos.
A montagem como procedimento pressupõe a desmontagem, a dissociação
prévia do que a constrói, daquilo que, em suma, não
faz mais que remontar ruínas, tanto no seu aspecto de rememoração
de temas como de estruturas. Nesse sentido, estamos diante de imagens
que aceitaram o convite metodológico de Walter Benjamin de que
o conceito absorve a série das manifestações históricas,
isto é, relaciona-o com a pré e pós-história
dos fatos, apostando em um conhecimento produzido pela montagem que faz
do não-saber de suas imagens originárias, pré e pós-históricas,
o objeto e o momento de descoberta de sua própria constituição.
Em Origem do Drama Barroco Alemão quando discorre sobre
as teorias do conhecimento Walter Benjamin diz que não há
processo bem-sucedido de representação “enquanto o
ciclo dos extremos nela possíveis não for virtualmente percorrido”.(Benjamin,
1984, p. 69). Nas aquarelas da artista o que está colocado de uma
maneira bastante contundente é o processo de metamorfose nelas
proposto tanto no que toca ao tema das imagens quanto ao processo de formalização
das mesmas. Evidencia-se uma história interna dessas imagens no
sentido de que elas nos dão a conhecer a sua pré-história
ao mesmo tempo em que nos oferecem a sua pós-história. É
interessante observar que as imagens apresentam um conjunto de contrastes
pertencentes tanto ao mundo natural quanto ao mundo contaminado pela vida
dos homens. No entanto, elas estão como que em outra esfera que
não aquela da história pura, a história como sucessão
de fatos humanos no decorrer do tempo. A história que essas imagens
apresentam é uma história que está intimamente relacionada
com uma noção de história natural. Uma história
natural que longe de estar ligada a qualquer tipo de determinismo apresenta-se
como uma história das obras e das formas, salvas em sua concepção
de tempo anacrônico. Tempo esse que permite seu acesso a um “vir-a-ser”
constante. Walter Benjamin ainda completa nesse mesmo texto que isso que
ele chama de história natural inautêntica nada mais é
do que um observar “o vir-a-ser dos fenômenos em seu Ser.”
Uma história natural inautêntica compreende que as manifestações
de vida que sustentam as relações naturais demonstram o
quanto estão intimamente ligadas ao ser vivo, sem significarem
nada para ele. Sendo assim, seria possível pensar que o resultado
da reflexão sobre o tempo e sobre as obras no contexto dessa história
natural inautêntica deriva não da evolução
da vida no decorrer desse mesmo tempo, mas da sobrevivência das
manifestações dessa vida. Benjamin no seu ensaio sobre a
tradução esclarece que atribuir vida à corporeidade
orgânica é uma empresa decorrente de uma época em
que o pensamento sofria de limitações sérias, no
entanto, não se trata também de pensar a sobrevivência
da obra no seu aspecto metafórico estendendo a ela o poder frágil
da alma das coisas, e tampouco se trata de definir esta sobrevida mediante
o uso de aspectos da vida animal. Trata-se assim de atribuir “vida
a tudo aquilo que possui história e que não constitui apenas
um cenário para ela [...] Daí deriva, para o filósofo,
a tarefa: compreender toda a vida natural a partir dessa vida mais vasta
que é a história. E não será ao menos a continuação
da vida das obras incomparavelmente mais fácil de reconhecer do
que as criaturas?”(Benjamin, 2001, p.193)
As
aquarelas de Mariana Palma apresentam-nos seres portadores uma vida natural
que chamam a atenção por sua inadequação a
si mesmos. Os sinais da vida natural inautêntica, com diria Walter
Benjamin, demonstram a relação entre ser vivo e coisa inanimada,
entre natureza e cultura, sem instaurar nenhum processo de significação.
Além do mais demonstram que o conceito de história natural
inautêntica ao qual está submetido o trabalho cumpre aquela
premissa das obras do barroco analisadas por Benjamin no trabalho sobre
o Trauerspiel alemão, isto é, a de deixar conhecer
tanto sua pré como a sua pós-história, inserindo
a obra no processo de continuação da vida das obras e nesse
processo, retomado novamente da reflexão benjaminiana sobre o barroco,
“o original alcança, de maneira constantemente renovada,
seu mais tardio e vasto desdobramento.”( “Tarefa do tradutor”,
p.195) Diz ainda Benjamin que a descendência de uma obra se conhece
a partir de suas fontes e o período da continuação
de sua vida, que é fundamentalmente eterna, se reconhece nas gerações
posteriores. Nesse sentido, diríamos que, analisando o trabalho
de Mariana Palma, pensamos reconhecer suas fontes e, com isso, verificamos
que não podemos conhecer o período de continuação
de sua vida, devido ao fato de que o trabalho de Mariana é muito
recente, entretanto, podemos reconhecer os seus traços perviventes,
isto é, aqueles que sobreviveram nas gerações posteriores
incluindo-se a dela, das obras que lhe serviram com fonte.
O
procedimento de composição do desenho de Mariana Palma é
o da montagem. Nesse procedimento articulam-se paradoxos concretos feitos
de montagem visual com paradoxos teóricos de montagens temporais
por meio dos quais se pode perceber uma concepção de tempo,
cuja característica maior é a de pertencer a todos os tempos,
isto é, ao tempo anacrônico. A montagem é feita com
base nos tempos das Metamorfoses da natureza, e isso não quer dizer
montar com base em materiais relativos à vida dos animais ou das
plantas, mas, conforme já anotamos, montar mediante um princípio
de inadequação a si mesmo. Mesmo inadequados, mesmo inautênticos,
as plantas, os animais, os artefatos culturais e seres humanos emprestam
seus fragmentos para a composição da montagem de mais um
ser inautêntico. E é talvez por isso que a inadequação
a si mantenha ainda a potência de recolocar com frescor a mesma
questão sobre a origem da história, mesmo depois de todas
as sobrevivências dos traços de todas as metamorfoses desde
Ovídio até Kafka, de Clarice Lispector e Wilson Bueno.
De que somos feitos? As aquarelas de Mariana respondem com o procedimento
de dar a conhecer a pré-história do ser que representa no
mesmo momento em que o representa para as gerações vindouras,
ou seja, se conhece a pré-história no mesmo momento em que
encena sua pós-história enquanto possibilidade.

Situado
entre sua materialidade selvagem e cultural o ser representado não
é idêntico a si. Ele é apresentado como um problema.
Não por acaso, essas figuras cedem um lugar aos paradoxos botânicos
de Goethe. No livro A metamorfose das plantas, Goethe postula
a investigação das relações entre o disseminado
e o configurado, e posteriormente essa mesma preocupação
será recuperada por Benjamin no ensaio sobre o romantismo alemão,
isto é, que há que se diferenciar o que é agregado,
mera conjunção de elementos díspares, daquilo que
ele chama de síntese misteriosa. O que se agrega e o que se torna
uma configuração, uma síntese misteriosa, nas metamorfoses
de Mariana Palma?

Nessa imagem é possível ver uma sucessão de justaposições
de elementos erráticos: talo de samambaia, um pedaço de
tecido jacquard (se nota que os fios do tecido estão se soltando),
uma cabeleira que deixa à vista uma protuberância, bem como
dos sistemas de simetrias – concêntricas ou arborescentes
– os quais apresentam flores, talos, e frutos como um tipo de enigma
formal e biológico. Sendo assim, percebe-se o quanto esse trabalho
de Mariana Palma concede um lugar especial aos paradoxos botânicos
de Goethe. No século XIX, conforme o estudo que Walter Benjamin
faz sobre a obra de Grandville, para a qual irá atribuir a característica
de “sadismo gráfico”, está presente um tipo
de maneirismo neogoetheano, que não passará despercebido
por Benjamin no ensaio “Paris, capital do século XIX”,
nos processos construtivos de montagem e desmontagem nas obras de arte.
Nas séries compostas por Grandville, intituladas “Uma revolução
vegetal” e “As flores animadas”, ambas de 1846, há
a proposição de um método de criação
conduzido pela alegoria das formas naturais. Benjamin sublinha, no ensaio
anteriormente citado, que “as fantasias de Grandville transferem
para o universo o caráter da mercadoria [...] A moda prescreve
o ritual segundo o qual o fetiche da mercadoria pretende ser venerado.
Grandville estende tal pretensão aos objetos do uso cotidiano e
inclusive ao cosmos. Ao leva-los até os seus extremos descobre
a sua natureza. Ela consiste na contraposição do orgânico.
Relaciona o corpo vivo ao mundo inorgânico. Percebe no ser vivo
os direitos do cadáver.”(BENJAMIN, 1991, p.36) Observa-se
o mesmo procedimento de contrapor o corpo vivo ao mundo inorgânico
nessa imagem de Mariana Palma.
Na imagem da bolsa com alça de osso de peito de ave pervive
uma forma ritual, um resto de algum ritual pagão de adivinhação
ou iniciação, resiste nela uma forma originária,
uma Urform, que é atualizada nas brincadeiras familiares
que fazemos “intemporalmente” ao segurá-lo até
rompermos seu vértice para ver com quem restou o pedaço
maior, simbolizando assim a boa sorte para quem conseguiu ficar com a
maior extensão do osso. Ao contrapor o orgânico ao inorgânico,
a natureza ao seu mais puro artefato, a bolsa se evidencia maliciosamente
como uma comparação crítica entre os acessórios
burgueses da moda os quais não se distinguem de seus hábitos
alimentares: a bolsa-estômago ou ainda a bolsa-intestino que está
situada no organismo logo abaixo da caixa óssea do tórax.
Os acessórios são as Urformen do corpo burguês
como adornos de si mesmo.
A contraposição do mundo das coisas da mercadoria ao mundo
vegetal ou animal é observada por Benjamin como procedimento, isto
é, como uma heurística da eficácia alegórica
das formas naturais, em outro artista que também faz surgir do
mundo vegetal todo um cosmos. Trata-se de Karl Blossfeldt e seu procedimento
de colecionar, de seriar e de montar com procedimentos cuja função
é alterar nosso próprio conhecimento do mundo, isto é,
a imagem que temos dele. Blossfeldt altera nossa visão de mundo
menos por um saber produzido do que por um saber que vem do fazer do produtor.
Esse saber separa as formas vegetais de sua confusão natural as
quais podem, dessa forma, compor uma outra beleza também baseada
em complexidades que conduzirá esta outra beleza, essa outra visão
do ser, a uma imagem singularmente radical. É de se ressaltar que
é nessa singularidade, é nesse lugar mais originário
que o espaço, onde residem as formas originárias. Blossfeldt
utiliza-se para isso da montagem cujo efeito é o de separar as
formas naturais e aumentá-las até a desproporção
para que possam causar um estado de estupefação que funciona
como um desautomatizador do nosso olhar. Esse procedimento nos leva a
novos territórios da visão devido à utilização
sistemática, no caso de Blossfeldt que trabalha com a técnica
fotográfica, do primeiro plano e da ampliação. Em
uma imagem inusitada de um ângulo muito definido de uma flor, a
“phacelia tanacetifolia”, montada por Karl Blossfeldt em 1928,
reside uma Urform que pervive na aquarela de Mariana
Palma.


Essas formas originárias nada têm de simples nem de puro,
tanto a de Mariana Palma, que não contempla em sua metamorfose
um novo ser previsível, quanto a flor de Blossfeldt, cuja ampliação
lhe deforma a natureza de simples ou puro modelo, testemunham o tempo
da alteração e da perturbação. Esse procedimento
leva ambas as obras para baixo, inclusive aquelas que trabalham com temas
que tradicionalmente possuem um estatuto elevado na arte como o tema das
flores. Esse movimento em direção à baixeza torna
as imagens algo repugnantes, sua tactibilidade, o seu savoir-faire,
é a princípio repulsiva. No entanto, compõe por este
caminho sua beleza singular e irredutível, conforme se pode comparar
novamente com outra fotomontagem de Blossfeldt e Maria Palma.


Nessas imagens que fazem questão de estarem situadas num lugar
mais originário que o espaço reside algo da magia das coisas
cuja comunidade com a linguagem humana se estabelece pelas forças
imateriais. Seu lugar de origem é o torvelinho temporal num fluxo
de imagens que não são objetos inorgânicos, animais,
vegetais e tampouco seres humanos. Nesse lugar poderia ser pensado como
uma passagem entre essas tantas formas de vida, entre essas tantas formas
originárias, reduzindo e rebaixando com isso a pretensão
humana de ser a forma originária da criação. Esse
lugar garante a função heurística do prazer das imagens
e do jogo que se realiza com elas como produtoras/criadoras de um saber.
Referências Bibliográficas:
Benjamin, Walter. Origem do drama barroco alemão, tradução
de Sergio Rouanet, São Paulo: Brasiliense, 1984.
_______________ “Paris, capital do século XIX”, em
Walter Benjamin, tradução Flávio Kothe.
São Paulo: Atica. 1991.
_______________ “A Tarefa do Tradutor”, tradução
Susana Kampf Lages, em Heidermann, Werner (org.), Clássicos
da Teoria da Tradução. Florianópolis: UFSC,
Núcleo de Tradução, 2001.
_______________Sobre la fotografia, traducción de José
Muñoz Millanes. Valencia: Pre-textos. 2005.
Goethe, J.W. A Metamorfose das plantas, tradução
Friedhelm Zimpel. São Paulo: Antroposófica.1997.
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