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Mariana
Palma: entre a delicadeza e o monstruoso Ao
observarmos o trabalho de Mariana Palma percebemos que além de
um diálogo constante com a arte botânica, a artista paulista
dialoga também com a poesia. Nesse sentido, para ler suas imagens
faremos um caminho de mão dupla: da plástica para a literatura,
da literatura para a plástica. Suas aquarelas até poderiam
ter surgido de um jogo ou charada infantil: o que é o que é?
Tem pêlo mas não é bicho; tem penas, mas não
é ave; tem folhas, mas não planta; é estampado,
mas não é tecido? É assim que podem ser descritas
as aquarelas que compõe a exposição que pode ser
apreciada no Museu Victor Meirelles de dezembro de 2006 a janeiro de
2007. Sem título, essas aquarelas, convidam a passearmos por
suas curvas e volumes, freqüentemente interrompidas pelo aparecimento
de uma nova forma, que igualmente brinca com o olhar, instigando, provocando,
como se fosse apresentar um outro animal ou vegetal. Talvez, o que percebemos
através dessas imagens é o poder de uma forma tocar a
outra. 1. A riqueza do paradoxo Diante das aquarelas de Mariana Palma, nos deparamos com uma sorte de paradoxo: pequenas formas “recortadas”, que num primeiro momento lembram o trabalho de um ilustrador botânico, contrastam com o vazio em que estão inseridas. Esse vazio aqui sublinhado se repete em algumas de suas pinturas nas quais uma paisagem fantástica ou, se preferir, surreal é construída a partir da demarcação estreita entre céu e terra, figura e fundo. E, nesse jogo de vazio e cheio, nos conduz à tradição pictórica na América Latina que em seus primórdios muito deveu aos pintores viajantes. Com a Revolução Francesa os olhares se direcionaram para além das fronteiras européias, buscando conhecimento, liberdade intelectual e política, o que culminou na eterna busca pelo poder. Várias expedições traziam consigo pintores viajantes como os tão conhecidos Jean-Baptiste Debret, Johann Moritz Rugendas, Albert Eckhout e Alexander Von Humboldt, que organizaram arquivos visuais com a função de registrar as belezas do “novo mundo”. Nesse “registro” dois modos de ver podem ser enfatizados: o olhar liminar, típico dos navegadores que se atinham a observar de longe a paisagem - da orla, das costas e portos; e outro dos naturalistas, que adentravam a mata em busca não somente da paisagem, mas dos pequenos elementos que a compunham - plantas, animais, cheiros e sensações (nota 01). Vários foram aqueles que se aventuraram pela América Latina e principalmente pelo Brasil. No entanto, nossa intenção, nesse momento é buscar ler o trabalho de Mariana Palma como re-lembranças desses fragmentos, vestígios dessa memória que se formou e que hoje reconstituímos a cada gesto, a cada olhar.
Essas aquarelas que pairam suspensas tanto no espaço, quanto na significação, ao invés de representar algo pontual, se desdobram em vários elementos que se contrastam, se unem e se repelem num movimento sempre interrompido por outro que novamente é interrompido, e assim, sucessivamente. A semelhança que tem como resultado o monstruoso, também persegue Wilson Bueno (nota 02) autor de vários livros e um dos grandes escritores brasileiros (nota 03). Em diversos momentos de sua escritura nos presenteia com seus livros cheios de seres, que hora são contemplados de longe, hora observados de perto, montados e elaborados minuciosamente. Relata Bueno que nascido numa cidadezinha no interior do norte paranaense, a 40 km de Jaguapitã, não havia brinquedos. A diversão era a mitologia zoológica. Tanto os adultos quanto as crianças se divertiam com as histórias de um universo em que se destacava do “zoomundo” e a sua mística. Segundo o escritor são esses bichos rurais, em contínua perplexidade com tudo e com todos que serviram de ponto de partida tanto para seu Manual de zoofilia (1997), quanto para Jardim zoológico (1999) e Cachorros do céu (2005). Bueno continua e sublinha que sendo seus pais lavradores, quase índios, facilitou a sua zoolatria que se inicia nesses tempos remotos em que não tinha “brinquedos”, mas brincava com as histórias de bichos que a mãe contava. Ou seja, brinquedos virtuais, do imaginário.
Assim, podemos dizer que dessas relações íntimas
apresentadas e relatadas por Bueno, vislumbramos um plus, ou
seja, uma soma, que faz com que as imagens se tornem potentes, possuidoras
de uma energia capaz de estimular outras leituras, outras possibilidades
de diálogos com o que está ao redor, num tempo anacrônico.
Assim, se as aquarelas de Mariana Palma nos levam a diversos universos,
do lúdico ao botânico, com os livros de Wilson Bueno além
dessa circulação por diversos territórios, temos
o reencontro com outros tempos que sempre é “atualizado”
no presente. Desse trânsito temos como conseqüência
um escritor que persegue infinitas maneiras de “recontar”
e “re-significar” o que ao longo do espaço e do tempo,
divertiu e construiu a fantasia tanto do menino, quanto do homem. E,
nesse sentido, pode ser dito que de suas leituras e de sua escritura,
temos como resultado a ficção atrelada à surpreendente
coabitação de seres humanos e animais que desfilam tanto
através de citações, como através da personificação
como personagens.
Segue a essa epígrafe uma verdadeira coleção de animais advindos das lembranças do menino que se divertia com as estórias, contadas ao pé do ouvido, pela mãe. Ao recuperar historias e, conseqüentemente escritores, dando uma voz apócrifa, Bueno contribui para o enriquecimento do imaginário dos leitores que se divertem permanecendo na dúvida, como podemos observar nos fragmentos abaixo, que descrevem três dos seres encontrados no seu Jardim Zoológico.
Com o decorrer da leitura percebemos que mais que uma coletânea de “seres imaginários”, como diria Borges, temos ainda uma releitura dos manuais de zoologia e das enciclopédias o que nos leva ao trabalho de Mariana Palma que sugere também, através do “encaixe” uma relação com o diferente. ( imagem 04) Abrindo
um parêntese e pensando na possibilidade de colocar num mesmo
espaço a artista e o escritor para lermos, lado a lado, o trabalho
escriturário e o plástico, constitui-se assim, uma sorte
de bestiário (nota 08). A partir do bestiário podemos
pensar tanto nos lugares das “imagens” perante a lei, quanto
perante o poder, pois pensando a imagem e o texto como agenciadores
de significados, se extinguem as fronteiras rígidas, pré-estabelecidas
pela história formal. Sabemos que não é tarefa
fácil, esse processo não ocorreu tão facilmente,
e nem de maneira espontânea, como nos mostra Michel Foucault em
Isto não é um cachimbo. Ou seja, relacionar plástica
com literatura, por exemplo, não é somente por uma legenda
na imagem ou vice-versa. Michel Foucault em 1973, ao escrever Isto
não é um cachimbo, nos ajuda a refletir e a observar
as diferenças existentes nesta relação: artes plásticas
e literatura. Já tendo se dedicado à leitura de “Las
meninas” de Velásquez, em As palavras e as coisas,
debruça-se dessa vez, sob os desenhos de René Magritte,
nos advertindo que há algo além da imagem e das palavras.
Notas: (1) O livro de Luciana de Lima Martins realiza, com detalhes, uma bela leitura da paisagem do Rio de Janeiro a partir de pinturas, aquarelas e cartas náuticas do final do século XIX. [MARTINS, Luciana de Lima. O Rio de Janeiro dos viajantes. O olhar britânico (1800-1850). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001]. (2)
Entre outros livros destacamos a novela Mar Paraguayo, lançada
em 1992, que segundo o escritor foi um divisor de águas na sua
trajetória como escritor (com prólogos de Néstor
Perlongher e de Heloisa Buarque de Hollanda), teve recentemente sua
primeira edição internacional, pela prestigiosa Intempérie
Ediciones, de Santiago do Chile. Esse livro foi adaptado para o cinema
por Nivaldo Lopes, no média-metragem de mesmo título,
e está sendo traduzido, por Erin Moore, para a Oxford Press University.
(3) Rita Lenira realiza um belo estudo de alguns dos livros que Wilson Bueno dedica aos animais em Poéticas do presente limiares. BITTENCOURT, Rita Lenira de Freitas. Poéticas do presente limiares. Florianópolis, 2005. Tese (Doutorado) Universidade Federal de Santa Catarina. (4) BUENO, Wilson. Jardim Zoológico. São Paulo: Iluminuras, 1999.p.17. (5) BUENO, Wilson. Jardim Zoológico. São Paulo: Iluminuras, 1999.p.17. (6) idem p.27. (7) idem, p.37. (8)
Do latim bestiariu, significa um livro com descrições
e histórias de animais, reais ou imaginários, geralmente
com ilustrações.
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