Torções
das margens: a Paisagem
Por: Profª. Msc. Ligia Czesnat
Os
trabalhos de Mariana Palma, suscitam pensar várias questões
a cerca da tradição da pintura clássica, isto, por
que suas paisagens recrutam o olhar do observador, não só
pelo estranhamento, no primeiro momento, mas também, por que realizam
torções gramaticais que confundem as margens, os territórios
paradigmáticos referentes à pintura de gêneros.
Como
é sabido a estruturação hierárquica da pintura
em gêneros, foi uma tarefa iniciada pela Academia Real de Pintura
e Escultura de Paris, no qual os temas foram organizados principalmente
entre: mitologia, história sagrada, temas históricos, retrato,
paisagem e natureza-morta. Apesar, do sistema de gênero, ter sido
hierarquizado pelo governo de Luís XIV em 1661, já na Renascença,
no programa de ensino de pintura, organizados doutrinariamente pelos dos
irmãos Carracci, estavam presentes as raízes da
pintura acadêmica, desde 1585. Sua academia recebeu a denominação
significativa de Academia dos bem Encaminhados, onde segundo
seu programa doutrinário, a pintura destinava-se a representar
temas, assuntos, cenas e acontecimentos superiores de grande elevação
moral e espiritual, inspirando-se principalmente na mitologia grega, nas
histórias Sagrada e Antiga, buscando sempre idealizar a natureza,
o homem e a vida.
De
qualquer forma, Leonardo da Vinci, inaugura o debate sobre a abordagem
na pintura, sobretudo, quando se refere aos pintores especializados, retratistas,
artistas que pintam naturezas-mortas ou paisagens, reprovando os pintores
que não mostram seus temas em ação, entendendo que
a pintura do movimento é a condição e dos meios da
representação da estória. O referido debate se prolongará
até o século XVIII e XIX, e culminará com Diderot,
que discute a questão de saber se o grande gênero pode
e deve, a exemplo dos gêneros menores, desenvolver a representação
do real até a reprodução dos mínimos detalhes,
ou se a insistência nesses detalhes secundários traz o risco
de se afastar do essencial e diminuir o efeito do quadro. (nota 01)
Tudo
isso, sem mencionar Plínio, o Velho que, no século I, redigiu
a enciclopédia História natural, no qual descreve
as técnicas utilizadas pelos latinos, especificamente o livro
35, onde dedica seus esforços à pintura, enumerando
suas origens gregas, biografia dos principais autores e escolas regionais.
È claro, vários discursos e definições de
procedimentos, somam-se a esses autores, ao longo do tempo.
As
paisagens de Mariana Palma, insinuam os procedimentos da pintura clássica,
ao incluir em suas telas, preocupações do gênero,
em questão. Instruída sobre elas, comporta ordenações
da perspectiva, de modo atribuir às suas tela o caráter
figurativo. Porém, não se utiliza da perspectiva científica
renascentista, recomendada, a exemplo da Della Pinttura, de Alberti
ou De Prospectiva Pingendi, de Piero della Francesca, ou o Trattado
della Pinttura de Leonardo da Vinci. Nesse procedimento técnico,
o pintor desenha a cena como se estivesse diante de uma janela, através
da qual sua visão monocular e imóvel lança o olhar
na distância do espaço. Os objetos são representados
por dedução matemática, numa transposição
das condições supostas do olhar. A perspectiva renascentista
é, portanto arbitrária e simbólica. Ao organizar
a relação sujeito e objeto, a partir do inquestionável
raio central, o Renascimento organiza o espaço de maneira fixa.
O olho aí é imóvel. A janela é lugar sobre
o qual os raios que organizam o espaço do olhar aparentemente de
forma extremamente naturalista e precisa. Mas esta aparente naturalidade
é o resultado de uma extrema codificação e de um
recorte no campo do olhar. As janelas não só reordena o
olhar como prometem um horizonte aberto á imaginação.
As janelas engolfam a problemática da paisagem, permitindo a transparência
e determinam à fragmentação do mundo. Krauss discute
a janela como seguimento da retícula e, assinala seu papel, como
um dos sintomas que reafirma a resistência ou o recalque na história
da arte (nota 02). A janela, no campo escópico é
um dar-se - ver para o Outro, um oferecimento á
exibição para o outro, é o desejo de mostra-se. Assim
as pinturas, feitas segundo a ordem da perspectiva atingem um grau de
assimilação do objeto representado que engana o espectador,
assumindo o papel de espetáculo, do gozo do espetáculo,
mas traz também, seu desvelamento, o horror, pois o olhar não
pode se ver senão ao preço do desaparecimento do sujeito.
É pulsão de morte! (nota 03)
Com
Mariana a perspectiva assume o procedimento que os egípcios, gregos,
romanos e miniaturistas medievais muitas vezes usaram. As sensações
de distância ou profundidade, volume ou tactilidade de suas paisagens,
são ressaltadas pela superposição, pelo amontoamento,
pelo empilhamento dos tecidos pintados que conferem a figuratividade no
plano. As simulações de tecidos aveludados remetem as montanhas
limitadas por uma linha no horizonte que, acentua a sensação
de profundidade. Em outros momentos, tecidos texturizados evidenciam a
relva, e objetos colocados ali ou acolá nos arremetem ao estranhamento
da cena. Esta pintura embora representada em duas dimensões, ganha
tridimensionalidade pelo as dobraduras, pregas feitas pela maleabilidade
e riqueza das texturas que os efeitos dos tecidos pintados encerram. È
uma paisagem paradoxalmente volumosa e estufada, do que se poderia chamar,
a exemplo de Leda Catunda, de uma poética da maciez. As
pinturas feitas de materiais moles, onde cores intensas são sobrepostas,
entrelaçados, recortados, amontoados conferem singularidade ao
trabalho da artista. As formas e criações decorrem em função
da própria sugestão que a associação e a materialidade
dos tecidos pintados presentificam. Esta técnica de dobraduras,
como no origami japonês, é quase um ready-made
duchampiano, quando propõe, materiais e artefatos produzidos
em série, pela indústria de tecelagem, como um desvario.
Suas imagens não são agressivas, se trata de coisas comuns
ou exóticas, como lagos, fundo do mar, conchas, flores, palmeiras,
bolhas, abajures de cristais, peles e induzem a refletir acerca da atual
proliferação de imagens e sua exaltação, num
fértil diálogo entre a pintura, escultura e desenho.
Seu
procedimento é muito próximo das vanguardas modernista,
por dois motivos, a saber: tactilidade e a colagem cubista. A vanguarda
moderna não fazia distinção entre imagem/fundo e,
buscando eliminar a sucessão de vários planos ilusórios,
drasticamente destruíram o preconceito da superfície da
tela como sagrada. E para exorcizar o vazio inerente ao próprio
fundo, usaram as texturas com o objetivo de aderir sensações
táteis, a partir de superfícies pastosas, rugosas, encaroçadas,
convertendo a sensação do espectador em efeito tátil.
Assim, a experimentação de materiais estranhos à
pintura contribuiu para a introdução de novos conceitos
plásticos.
A collage cubista ou a montagem-colagem, uma das estratégias
utilizadas por Picasso, tanto no cubismo sintético como em obras
posteriores, é a consciência entre a reversibilidade da relação
figura/fundo e a contínua transposição entre forma
negativa e forma positiva. A colagem supõe a primeira abordagem
das artes pictóricas de algo semelhante á exploração
das condições de representabilidade colocadas no signo.
È a noção de ausência que assegura
a condição de identidade do signo como representação.
No signo a ausência opera também como diferença. A
natureza em termos diacrítico do signo, resulta na afirmação
que, o significado nunca é algo absoluto, mas sempre aberto a resignificações,
num conjunto de possibilidades. Isto caracteriza o significado como diferença,
na medida em que é puro arbítrio. Os elementos da colagem
permitem inferir um sistema de signos, encontrado nas operações
de ausência e de diferença. Assim como os fragmentos da colagem
são limitados por um complexo contorno que define a silhueta de
uma forma vizinha, cada elemento diacrítico remete a linha, a cor,
a clausura, a abertura, a superfície e a profundidade. Por tudo
isso, a colagem cubista estabelece conjuntos de predicados que, ultrapassam
as propriedades dos objetos, estendendo-se diferencialmente até
o núcleo do código formal da pintura. A colagem adere ao
fragmento e a disposição de um plano sobre o outro. Cada
plano, ao lado de seu suporte, penetra na obra literalizando sua profundidade,
deitando diante ou por cima do campo o elemento que parcialmente esconde.
Desta forma, a colagem abre um campo á representação,
no qual uma figura, ao mesmo tempo, que penetra oculta. O campo, portanto
se configura tanto pela figura como pela própria ausência,
por indicação de uma presença material que se fez
literalmente ausente. A colagem por isso, inscreve uma presença
para garantir uma ausência. È metalinguagem visual, denunciando
o esgotamento do fundo, ao referir-se ao espaço sem fazer uso dele,
mascarando-o, configurando figuras mediante a superposição
de campos, pode remeter a luz e a sombra através do recurso
do texto escrito. Participa de nossa experiência não
como objeto de percepção, mas como objeto do discurso,
de representação. Aqui reside o corte, efetuado pela colagem
como sistema na arte moderna (nota 04).
Na pós-modernidade, a representação da perspectiva
aparece indeterminada, representar um objeto não significa necessariamente
determinar sua existência, já que nenhum objeto é
original, é sempre simulacro. Nas investigações sobre
a ausência encaminhadas pela modernidade, encontramos a protohistória,
do sistema de representação da contemporaneidade. Recuperando
o trabalho de Mariana, percebe-se o que está em jogo é a
problematização do espaço através de uma metalinguagem
visual, materializado no pensamento artístico e que instaura um
novo regime de verdade. Seguindo esta linha de raciocínio, operacionalizado
pelo processo de superposição de campos de montagens, a
artista distorce as margens da paisagem tradicional, misturando gramáticas,
realizando uma paisagem/natureza-morta, ao configurar nos seus
trabalhos o aspecto simulacral de materiais perecíveis e objetos
aparentemente produzidos em série, pela indústria.
Os ready-mades, assamblages, montagens, combinações
e arranjos formais habitam o território conceitual expresso pela
natureza-morta e pode-se reconhecer a vanitas como uma espécie
de elo que retorna sistematicamente, na história da arte do Ocidente.
Foi acentuadamente abordada durante a Reforma religiosa, registrava principalmente,
os temores relativos às guerras, as epidemias através de
caveiras, velas como admoestação à condição
de finitude da vida, recebendo adições de toda natureza
como carcaças de animais, cabeças decepadas, etc. Os jogos
das vaidades eram simbolizados pelas atividades fúteis como jogos
de cartas, moedas, máscaras espelhos, resumindo referências
ás ilusões e passagens do tempo. A reflexão sobre
a vida terrena, sua transitoriedade servia especialmente como advertência
cristã de que vaidades das vaidades, tudo é vaidade.
Gombrich indica que toda natureza-morta é ipso facto também
uma vanitas (nota 05), assinalando os elementos que se apresentam
como enganos e somados a eles um sermão sobre a aparência,
a realidade do mundo e da vida como uma passagem sem retorno. A natureza-morta
configura-se também como memento-mori, dado experimentado
por aquele que, diante de um objeto constata a sua própria finitude,
posto que tudo que está vivo está fadado a morrer, degenerar,
corromper-se (nota 06). Lembra-te!
As pinturas de Mariana revelam, através de jogos de re-apresentação
de uma série de objetos e artefatos que habitam paisagens
de sonhos e de pesadelos, repulsa e atração, abjeção
e sedução, experimenta-se o estranhamento da configuração
de outros lugares que parecem dizer carpe diem, ou melhor, desfrutem
o presente, escondendo uma da advertência velada. Os trabalhos da
jovem artista remetem ao delírio, ao arremesso, capturados que
somos pela ambigüidade de sua obra. È uma operação
arriscada, pois ao abordar princípios que ferem as gramáticas
artísticas procura ultrapassá-las, conjugando territórios
irreconciliáveis, sobrepondo lâminas históricas, enfrenta
o desvio, o descontínuo, o efêmero. Assim o procedimento
adotado, tal como a própria paisagem que nasceu preenchendo cantos
e vazios (nota 07)e que disseminou enfim, mundos, fissuras e lugares;
também a natureza-morta que, se apresentando como uma espécie
muito particular de figuração, como potência, rompe
o continuun da história, e instaura uma terceira margem
transgressiva e híbrida, produzindo a possibilidade de novas combinações.
Notas
1)
LICHTENSTEIN, Jacqueline (org.) A Pintura – Vol. 10: Os Gêneros
Pictóricos. Trad. Magnólia Costa. – São
Paulo: Ed. 34, 2006, p.20.
2) KRAUSS, Rosalind. La originalidade de la Vanguarda y outros mitos
modernos. Trad. Adolfo Gómez Cedillo. - Madrid: Alianza Editorial,
1996, pp. 30 a 33.
3) LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos
fundamentais da psicanálise. Trad. MD Magno. – 2 ed.-
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, pp. 90 a 102.
4) KRAUSS, op. cit. p.51 a 55
5) GOMBRICH, E. H.. Meditações sobre um cavalinho de
pau. Trad. Geraldo Gerson de Souza. - São Paulo: Edusp, 1999.
p. 105.
6) PANOFSKY, Erwin. Et in Arcádia Ego: Poussin e a Tradição
Elegíaca. In: Significado nas Artes Visuais. São
Paulo: Perspectiva, 1991, p. 394.
7)
GOMBRICH, E. H. A teoria renascentista da arte e a ascensão da
paisagem. In: Norma e Forma. Trad. Jefferson Luiz Vieira. São
Paulo: Martins Fontes, p. 154.
Bibliografia:
GOMBRICH,
E.H. Norma e Forma. Trad. Jefferson L. Vieira.- São Paulo:
Martins Fontes, 1992.
_________________ Meditações sobre um cavalinho de pau.
Trad. Geraldo Gerson de Souza. - São Paulo: Edusp, 1999.
KRAUSS, Rosalind. La originalidad de la Vanguarda y outros mitos modernos.
Trad. Adolfo Gómez Cedillo. – Madrid: Alianza Editorial,
1996.
LACAN, Jacques. O Seminário 11: os quatros conceitos fundamentais
d psicanálise. Trad. MD Magno. – 2ª ed. –
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
LICHTENSTEIN, Jacqueline. A Pintura – Vol. 10: Os gêneros
pictóricos. Org. Lichtenstein. Trad. Magnólia Costa.
– São Paulo: Ed. 34, 2006.
PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes Visuais. Tra. Maria Clara
Kneese e J. Guinsburg. – São Paulo: Editora Perspectiva,
1979.
Ligia
Czesnat foi Professora de História da Arte da Universidade Federal
de Santa Catarina).
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