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Distâncias
entre dois pontos. Victor da Rosa, ensaísta e bacharelando em Letras pela UFSC. Outros de seus textos podem ser lidos em [ www.literaturamenor.blogger.com.br ]. ao que resta 1
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– É preciso que o espelho deixe de refletir seu rosto para que Leonilson possa criar outro de si que não seja o mesmo – entre o próprio rosto que se apaga e o bordado que se desenha existe uma diferença, uma dobra. O artista produz o traço e, ao mesmo tempo, é produzido nele – num retorno infinito ao outro. Assim, não se trata apenas de representar o próprio corpo, mas de provocar a sua dramatização, retirar dele um resto trágico. Dessa maneira, quase sempre as palavras que Leonilson tece não possuem referência em algum lugar exterior, nem empregos e funções – sua experiência com a linguagem é da ordem de uma encenação. Elas apenas põem o sujeito numa cena, lamentam, sobretudo vacilam, e permanecem nesse meio do caminho. A elas, não há resposta possível. A proximidade entre Leonilson e seu trabalho é tal que passa a ser impossível criar qualquer representação dele. E o traço, numa relação reversível com o artista, passa a ser o corpo mesmo da obra. 3
– Leonilson não esconde seu gesto, o corpo que o constitui, enfim, o próprio movimento do erro e da imperfeição que cria o trabalho – “(...) o negócio da mão é o prazer de dar o ponto, de errar”, diz o artista. Creio que nem fosse preciso saber da cena do hospital para perceber que aquele garrancho era a letra de um cansaço, a cena de um corpo limitado. Nos versos da poeta Virna Teixeira, o artista tem as mãos cansadas: “a costurar cada / fio / mãos trêmulas”. No entanto, na medida em que Leonilson vai ficando mais fraco, na medida em que suas mãos erram, parece que o trabalho vai ganhando ainda mais força. O corpo do artista, sua obra, tem alguma relação com aquilo que dele resta, as marcas que ficam como dispêndio – o erotismo, o cansaço. Assim, seu trabalho pode ser tocado – e não lido, pois não há enigmas nem decifrações a fazer – como uma “antologia de vestígios”. *** Seu bordado “El Desierto” (1991), como um diário íntimo, reclama da solidão de si, dramatiza uma falta. Pois se o deserto pode ser definido como lugar sem paredes, ele pode ser, ainda assim, sufocante, também uma clausura, como escreve Ricardo Resende em seu texto sobre a exposição. O deserto é, sobretudo, um lugar de tensão entre o desejo de dizer, revelar, e a impossibilidade de ser escutado, o cheio e o vazio, o sim e o não – a afirmação na obra e a negação na vida: “Para que o deserto? É todo cinza. Na obra, você briga, é um jogo de ansiedades. Eu me sentia um deserto mesmo, eu estava um deserto. Eu não tinha nada”. Leonilson toca o paradoxo, pois oferecer a si – “Voilá mon coeur” – é, ao mesmo tempo, insuportável e necessário; dolorido, mas uma maneira de não morrer, de viver os restos da vida – não seria este um discurso romântico por definição?
(...)
como se, da escritura, ato erótico desgastante, restasse o cansaço
amoroso: A última exposição que Leonilson realizou em vida, na Capela do Morumbi, São Paulo, em 1993, foi composta por bordados em roupas claras de tecido fino que, penduradas em cabides e cadeiras, apontam para a presença de um corpo quase desmaterializado. Assim, anota Lisette Lagnado: “Como Eva Hesse, Leonilson estava impelido a buscar um material que fosse o suporte ideal para abordar a idéia de desmaterialização do corpo. Nesse sentido, a transparência de seus panos equivale ao látex, à gaze e fibra de vidro de Hesse”. A idéia da religiosidade, recorrente na obra de Leonilson, figura não somente pela apropriação do espaço da Capela, mas também por uma visualidade sutil que evidencia esse corpo etéreo. No entanto, ao mesmo tempo, penso também na figuração de um erotismo nessas roupas. O cansaço das mangas que caem, escorrem pela cadeira; as palavras “Los delicias”, bordadas em uma das camisas; as roupas costuradas uma na outra, como se fossem a mesma, estivessem juntas; enfim, o conceito mesmo da roupa usada e deteriorada pelo próprio artista; tudo insinuando um gesto erótico ausente, anterior – a sedução se constitui justamente pela falta. Dessa maneira, Leonilson é sagrado e humano, sendo possível, nesse sentido, tocar também numa idéia de “profanação”, nos termos de Giorgio Agamben. Para o filósofo italiano, a profanação se constitui justamente com o sagrado devolvido ao uso humano: “A passagem do sagrado para o profano pode acontecer também através de um uso (ou melhor, de um re-uso) totalmente incongruente do sagrado”. Em Leonilson, “a vontade religiosa” não é subtraída de todas as outras vontades – pelo contrário, é tensionada com elas, colocada ao lado do erotismo, do cansaço, do dispêndio. Aqui, não há cesura, segregação, mas acúmulo e contágio. Daí a potência desse corpo ao mesmo tempo ausente e presente, etéreo e concreto, erótico e religioso. Enfim, absolutamente ambíguo e paradoxal. 5
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Texto
originalmente publicado no Caderno10, do jornal A Notícia,
no dia 06 de outubro de 2006 e no site Net Processo www.netprocesso.art.br |
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