| |
Costuras
emocionais
Muitas
chaves são necessárias para desvendar o homem e o artista.
Não é diferente em Leonilson, cuja produção
marcada pelo tom biográfico é capaz de tocar de imediato,
quase todo mundo. Mais do que isso, vida e obra, parecem carregar um potencial
de destravamento. Sensibilizado, o público atende, por via direta
ou transversal, a um suposto convite que resulta na criação
de uma outra poética - a do espectador, que se traduz em palavras,
gestos, silêncio, síntese, expansão efusiva da emoção.
A constatação é visível num conjunto de depoimentos
em que os convidados ficaram totalmente livres para falar da experiência
diante da obra do artista, apontada - aqui - como uma "explosão
de sensibilidade".
“Conheci
Leonilson porque ele me ligou por ocasião da mostra que realizamos
chamada Pintura como Meio no Mac da USP em 1983 (eu, Sergio Romagnolo,
Sergio Niculicheff, Ana Tavares e Ciro Cozzolino), disse que queria me
conhecer e marcamos um encontro na casa-atelier dele que ficava na Vila
Mariana. Não sabia bem o que esperar daquele encontro mas, tivemos
o que poderia se chamar de uma conexão imediata. Nas semanas seguintes
apresentei o Sergio a ele e nos tornamos por um certo e até longo
período inseparáveis, em geral sempre na casa dele prá
onde até, o Sergio depois se mudou. Todos eramos muito jovens na
época e eu não tinha a dimensão, que agora tenho,
de quão raro é a gente encontrar alguém com quem
nos identificamos tanto. Mesmo com divergências ocasionais seguimos
como um grupo espontâneo ao qual em seguida se ligaram o Eduardo
Brandão e o Jan Fjeld e juntos passamos pelo que mais tarde veio
a ser chamado de “Geração 80” e mais um turbilhão
de exposições e festas de todo tipo. Havia uma clara sintonia
ideológica na nossa produção artística, do
tipo que não pode ser definido em palavras uma vez que o nosso
assunto é imagem.”
Leda Catunda, artista
"Gotas
de cristal sobre lona, Voilà mon coeur, um travesseirinho lilás
bordado assim: Ninguém. Grafitos cosidos de agulha e linha no vestido
da noiva, fios tecidos sobre tecidos lisos, inteiros de cor, entretecidos
de texturas, voile pleno de escrituras mínimas para o olhar nostálgico
de dedais dourados e prateados. O frio lá de fora traz a luz que
entra pelo vidro da janela e aquece a máquina Singer a pedal, cheiro
de óleo, os moldes pendurados com alfinetes atrás da porta
do quarto de costura, a régua amarelada de madeira, a fita métrica
em segmentos de verde e vermelho: riscas, gatos, torres, barcos a giz.
Alinhavados, cortados a tesoura, a faca. Leonilson, o ponto-em-cruz, os
espinhos da coroa furam a cabeça de Cristo e o coração
dele sangra, tua delicadeza, teu traço tênue e vigoroso afagam
meu rosto, me enternecem e apontam: cão, grito, brisa, na doçura
infantil de sortir arquétipos com mão de sonho."
Dagoberto Bordin, jornalista, professor
"Leonilson
é uma explosão de sensibilidade na construção
de uma poética própria, rara, sincera, autêntica,
repleta de aflições, angústias, paixões, medos,
gritos e silêncios... É emocionante e nos faz pensar... Nos
faz sentir 'com um oceano inteiro para nadar'... "
Charles Narloch, diretor-executivo da Fundação
Cultural de Joinville e curador independente
"Poeta
que costura iconografias da metrópole através de linhas,
cores, desenhos e amores. Sua obra está permeada de signos, ícones,
símbolos de uma sociedade que insiste em marginalizar e discriminar
o ser humano. Com seu olhar poético, seu imaginário pessoal,
busca velar e revelar, tornar visível o invisível para que
possamos ser tocados, acordados. Um anjo que guia nosso olhar pela angústia,
dor, desejos e segredos humanos. Seu suporte parece ser o próprio
corpo humano - seu corpo, nosso corpo. Uma obra que contém a memória
da vida pulsante no corpo, na alma. A costura da alma, pela alma, na alma."
Franzoi, artista plástico e professor
"Estive
no Projeto Leonilson em junho deste ano, em conversa com a presidente
Ana Lenice de Fátima Dias Fonseca da Silva, que é também
irmã de Leonilson. Buscávamos uma troca de informações
e uma cooperação técnica já que, assim como
o Projeto Hélio Oiticica, o Projeto Portinari, a Fundação
Iberê Camargo, o Instituto Luiz Henrique Schwanke e a Fundação
Hassis, possuímos muitas coisas em comum. Todas estes projetos
surgiram a partir de um artista que legou um importante acervo. Esse é
um movimento que começou na década de 1970 e que cada vez
mais ganha força: a constituição de fundações,
institutos e associações para buscar dar conta de acervos
pessoais. A equipe do Leonilson já está na luta desde 1993
e surgiu entre os familiares e amigos do artista logo após a sua
morte para buscar preservar, estudar e difundir a obra do artista. Assim
como o Projeto Hélio Oiticica no Rio de Janeiro, eles têm
conseguido manter a obra de Leonilson em diversas exposições
seja no Brasil, seja no exterior. O trabalho está bastante avançado
no que diz respeito a catalogação das obras do artista.
Foi criado um banco de dados específico para atender as necessidades
de um acervo múltiplo como o de Leonilson, que possui telas sem
chassis, tecidos bordados, instalações, objetos, entre outros,
o que demanda todo um trabalho museológico bastante específico.
O Projeto Leonilson fica em uma pequena casa na Vila Mariana, em São
Paulo, bastante próxima ao Museu Lasar Segall. Na casa se encontram
trabalhos do artista, mapotecas e computadores para trabalho. O local
não funciona como um museu propriamente dito mas recebe algumas
visitas. É mais um escritório, uma base de encontro e de
trabalho para a equipe. O Projeto é um exemplo para tantas outras
iniciativas neste sentido."
Fernando C. Boppré, diretor do Museu Hassis
"Na
exposição 'Novos Territórios', em 1995, o Janga escreveu
uma matéria no 'DC' em que ele dava uma opinião bem ácida
sobre todos os artistas. Comigo ele foi bastante generoso, mas sobrou
numa legenda de foto. No texto estava tranqüilo, mas na legenda estava
assim: Lindote finalmente livre, liberto ou exorcizado, não sei,
do fantasma de Leonilson. Ele nunca tinha falado, aliás, que eu
o imitasse. Eu não sabia que rolava isso. Partilhávamos
do mesmo vocabulário do Leonilson, uma questão de geração.
O Leonilson desenhava e pintava um tipo de coisa, mas não foi ele
quem inventou, ele repicava coisas principalmente dos anos 1970 e todos
nós fazíamos isso. Só que, lógico, ele era
muito conhecido, então ficava em cima dele o holofote. Para mim,
Leonilson era um modelo como artista. Eu achava legal a sua inserção,
o tom de brincadeira. Falo do Leonilson do início, com aquelas
pinturas depois de sua ida à Europa, aqueles linóleos, que
eu também usava, e pintava solto, como todo mundo fazia. Não
era só o Leonilson que pintava num pedaço de linóleo
e grudava na parede. No Brasil, os famosos, Leda Catunda e Sergio Romagnolo,
por exemplo, todo mundo fazia do mesmo jeito. A gente tinha também
o direito de fazer, era uma questão da época. Além
de gostar do repertório inicial, em que, assim como os europeus
pegavam seus modernismos, ele brincava em alguns trabalhos com o modernismo
brasileiro. Depois, ele foi abandonando isso. Mas no início tinha,
ele botava uns sapos, uns bichos e tal. Então, fiz os meus sapos
também, daí talvez essa coisa de talvez eu imitar o Leonilson.
Acho que para todo mundo desta geração ele uma espécie
de herói, porque era o bem-sucedido, desfrutava do mercado, impunha
outro olhar ao circuito que era super carruncudo. Vendia arte conceitual
e derivados, de super qualidade, não dá para duvidar disso,
com Cildo Meireles, Tunga, etc. mas uma arte muito cerebral, de pensar
e tal. E, aí assim, com Leonilson é possível fazer
algo mais relaxado e divertido. Era admirável ver ele inserindo
esse humor em galerias grandes, em publicações. O fato do
Museu Victor Meirelles trazer a primeira exposição de Leonilson
para Santa Catarina dá visiblidade à qualidade de sua obra.
É um lucro, é bem significativo as pessoas, que não
viajam tanto, poderem ver a produção. O pessoal do interior
do Estado pode vir a Florianópolis com mais facilidade do que ir
a São Paulo. É uma individual, um apanhado legal, são
obras pequenas para caber ali. O outro aspecto é que exposição
deste tamanho, desta importância contribui para o circuito. E fico
contente por ser no Victor Meirelles, porque daí sei que a montagem
e todos os detalhes importantes estarão bem atendidos."
Fernando Lindote,
artista e curador
“Sou
totalmente fascinada pela obra do Leonilson. Pela contemporaneidade que
fala de emoções, tristezas e alegrias comum aos indivíduos
do nosso tempo e que se permitiu falar delas. Por sua linguagem simples
densa e completamente plástica, por ter uma simbologia de fácil
entendimento levando o espectador a compartilhar seus sentimentos na leitura
da obra. Pela simplicidade de conteúdo e sobretudo no uso do material,
popular e doméstico. Por sua visibilidade clara e visualidade limpa
nas formas e imagens. Por ser um artista brasileiro com dimensão
universal. Por isto e por muito mais aprecio a poética de Leonilson
que está presente em cada ponto do seu bordado ou em cada linha
dos seus desenhos.”
Linda
Poll, artista plástica, atua como professora em Jaraguá
do Sul e Joinville.
|
|
|