A
metamorfose do sobrado da rua do Açougue em um museu
de grandeza histórica
Por Daisi Vogel
A
criação do Museu Victor Meirelles (1),
que chega agora a seus 50 anos, não se recorta como gesto
circunstancial e solitário no seu tempo. Ao contrário:
a atmosfera de ebulição cultural, política
e social, que já se esboçava no Brasil na Semana
de Arte Moderna, em 1922, se dinamizou ainda mais nos anos 30,
e é nesse cenário que um grupo de intelectuais
se reuniu em torno de uma proposta de proteger e preservar os
bens patrimoniais do país. Iniciaram-se os tombamentos
de grandes monumentos, como fortalezas e sítios arqueológicos,
e surgiu a iniciativa de criar uma série de museus espalhados
em todo o território nacional, dentro de uma política
mais ampla de preservação. Uma figura central
nesse movimento foi Rodrigo Melo Franco de Andrade, fundador
e durante 30 anos diretor-geral do órgão federal
de preservação do patrimônio cultural, o
então Serviço de Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional, SPHAN. Em torno
dele, se organizaram vários projetos de museus e desde
o final dos anos 30 podem ser encontrados nos arquivos da instituição
documentos pedindo dotações orçamentárias
para adquirir a casa em que nasceu, em Florianópolis,
o mais destacado pintor brasileiro do século XIX, Victor
Meirelles (2).
O projeto do museu foi trabalhado de forma sólida e constante.
Procurava concretizar a compra da casa natal do pintor e ao
mesmo tempo montar um bom acervo inicial. Havia uma idéia
clara de como esse acervo podia ser formado:
[...]
a produção de Victor Meirelles foi tão
abundante, que haverá sempre em poder de particulares
um número considerável de quadros seus, cuja compra
paulatina se recomenda, por todos os motivos, e que viriam a
constituir a coleção do museu alvitrado. E mesmo
que não se adquirisse no mercado tela alguma do grande
pintor, o próprio Museu Nacional de Belas Artes poderia,
sem o menor prejuízo, ceder um certo número de
suas obras para o novo estabelecer, uma vez que as possui em
profusão [...] (3)
Foram,
sem dúvida, décadas férteis para a maturação
dos projetos de museus. Em São Paulo surgia o Museu de
Arte de São Paulo (MASP), em 1947, e o Museu de Arte Moderna
(MAM), em 1948; em Florianópolis, em 1949, também
era criado um museu de arte moderna, atual Museu de Arte de Santa
Catarina (MASC). Pois Rodrigo Melo Franco perseguiu incansável,
durante anos, a implementação de seu idealizado
conjunto de museus locais. Ainda em 1945 insistia com o ministro
Gustavo Capanema, da Educação e Saúde, pela
autorização definitiva para projetos como o Museu
da Inconfidência, o Museu Imperial, o Museu das Bandeiras,
o Museu das Missões, o Museu do Ouro e, entre eles, “um
pequeno Museu Victor Meirelles, a ser instalado em Florianópolis,
na casa onde nasceu esse mestre ilustre da pintura brasileira”
(4).
A
casa, um sobrado tipicamente luso-brasileiro, tinha sido construída
entre o final do século XVIII e o começo do século
XIX. Foi armazém de secos e molhados: no térreo
o comerciante Antônio Meirelles de Lima, pai de Victor,
tocava seu negócio. A família morava no piso superior,
e foi ali que Victor Meirelles de Lima nasceu, em 1832. O plano
de fazer da casa um museu foi aprovado e posto em marcha ainda
na era Vargas, mas demorou algum tempo para deslanchar. Foi uma
ameaça de demolição que fez com que o projeto
fosse retomado com mais veemência: construída muito
antes da proliferação dos automóveis, a casa
agora estrangulava a rua e deveria dar lugar ao tráfego.
Rodrigo Melo Franco enviou a Florianópolis um de seus colaboradores
no SPHAN, Alfredo Teodoro Rusins, conservador e secretário
do Museu Imperial em Petrópolis (RJ), com a missão
de conseguir sustar junto ao interventor federal em Santa Catarina
a idéia da demolição. Rusins deveria ainda
localizar o proprietário da casa e negociar o seu preço.
Ao final, ele se tornaria também o responsável direto
pela transformação prática da casa num museu.
Rusins se entendeu com Ivo de Aquino, secretário
estadual de Segurança e Educação, que lhe
prometeu não derrubar a casa, e contatou o seu proprietário,
Nicolau Camariére, “um ancião, italiano de
nascimento, mas que passou quase toda sua vida em Florianópolis”
(5). A história trágica deste
imigrante é entrevista no relatório de viagem feito
por Rusins, acrescentando riqueza humana à história
da velha casa (6). Camariére herdara
a casa do avô, Victor Sanseverino, e era seu proprietário
havia 50 anos. Não lhe tinha feito nenhuma alteração
física substancial e a alugava por Cr$ 200,00 mensais.
Ficava na esquina das ruas que se chamavam, na época de
sua construção, do Açougue e da Pedreira,
atuais Victor Meirelles e Saldanha Marinho, a 50 metros da praça
que sempre foi o coração da cidade, o antigo Largo
da Matriz de Desterro, atual Praça XV de Novembro. Sua
arquitetura apresenta as características básicas
das casas da época: alvenaria de pedra, tijolos e estuque;
portas, janelas, soalho e escada feitos em canela. Por dentro,
sobressaem as salas interligadas por um corredor e uma alcova;
por fora, sua implantação sobre o alinhamento da
rua, sem recuos, a cobertura em telha de cerâmica em forma
de capa e canal, os beirais do tipo beira-seveira, as janelas
com postigos cegos de madeira. Manteve-se como uma das poucas
edificações de estilo claramente oitocentista preservadas
em Florianópolis.
Por um cálculo muito pessoal, Camariére chegou ao
valor de Cr$ 35.000,00 pela venda da casa. Rusins sondou pela
cidade e considerou o preço justo, que seria para o SPHAN
“ótima transação tanto do ponto de
vista comercial como ainda do histórico”. A rigor,
a iniciativa e os procedimentos para aquisição da
casa natal de Victor Meirelles ocorreram em ação
vertical, desenvolvida na esfera do SPHAN e do Ministério
da Educação e Saúde. Mas na época
também havia alguma efervescência cultural em Florianópolis
e ocorreram mobilizações para fazer da casa um museu
de arte. Por iniciativa do escultor Moacir Fernandes de Figueiredo,
os sócios do Instituto Histórico e Geográfico
chegaram a rascunhar uma proposta para viabilizar a compra, enquanto
a imprensa e o círculo de intelectuais reunido em torno
do Grupo Sul repercutiam a importância do projeto, seus
prazos, características e acervo.
Em 20 de julho de 1945 Rodrigo Melo Franco informou a Gustavo
Capanema os resultados da viagem de Rusins e mais uma vez pedia
que a União adquirisse a casa, pelos Cr$ 35.000,00. Os
trâmites seguem por mais meio ano, a compra é aprovada
em 24 de janeiro de 1946, mas o Ministério da Fazenda precisa
ainda abrir um crédito especial para efetuá-la.
Finalmente, em 22 de fevereiro de 1946 (exatamente 43 anos após
a morte do pintor) o presidente Eurico Gaspar Dutra assinava o
Decreto-Lei nº 9.014, que “[a]utoriza a aquisição
da casa em que nasceu Victor Meirelles e outras providências”.
E em 2 de junho de 1946 era lavrada, no 1º Ofício
de Notas de Florianópolis, a escritura de compra e venda
da casa e do respectivo terreno, com 132 metros quadrados de área.
A escritura foi registrada no mesmo Ofício, na folha 145
do livro 3E, sob o nº 5.555, em 30 de julho de 1946. A casa
natal de Victor Meirelles era, a partir de então, da União.
Quatro anos depois, em 30 de janeiro de 1950, seria tombada como
patrimônio nacional.
A
velha casa reclamava reformas. “O soalho no andar superior
em alguns trechos está cedendo. O seu estado geral não
apresenta perigo de ruir mas o descuido do proprietário
e a incúria dos inquilinos, todos modestos, fez com que
ela ficasse todos os anos de sua existência em completo
abandono.” (7) Mas foi central a preocupação
em manter o estilo e o plano de obras do SPHAN foi rigoroso: “[t]oda
e qualquer peça nova deverá ser igual, em qualidade
e aspecto, à peça existente” (8).
O arquiteto decorador Georges Simoni foi contratado no Rio de
Janeiro para definir o mobiliário, sua disposição
e o desenho final das salas de exposição. Criou
o balcão e um porta-chapéus para o salão
de entrada; desenhou os bancos com pés de madeira, forrados
em couro e estofados com molas, que acomodaram os primeiros visitantes.
Enquanto isso, Rodrigo Melo Franco se movimentava, gentil mas
veemente, na caça ao acervo. Esse espírito se mostra,
por exemplo, quando escreve ao diretor do Museu Nacional de Belas
Artes, Oswaldo Teixeira:
[...]
só desejo a obtenção dos trabalhos do mestre
catarinense pertencentes ao MNBA se o senhor concordar em nos
atender, sem constrangimento. Nem eu aceitaria a eventualidade
de causar prejuízo ao patrimônio desse Museu em
proveito de empreendimentos nossos, nem tão pouco a de
lhe causar qualquer contrariedade. (9)
Em
duas semanas Oswaldo Teixeira apresentava sua lista com 21 contribuições,
(10) privilegiando materiais que tinham
equivalentes para permanecer no MNBA e que eram também
representativos da trajetória do artista. Reuniu 13 estudos
em papel, uma aquarela e sete óleos sobre tela. Na lista
constavam os óleos A Morta, Cabeça de Velho, Estudo
para Batalha dos Guararapes: Felipe Camarão, Estudo para
Batalha dos Guararapes: Soldado Holandês, Estudos de Capacete,
Estudo de Traje e Barranco (paisagem). Havia ainda a aquarela
Estudo de Traje e os desenhos a lápis Estudo de Panejamento,
Estudos de Navios (para a Combate Naval do Riachuelo), Estudo
de Paisagem, Vista de Ronciglioni, Estudo para Batalha dos Guararapes
(croquis), oito estudos de navios para a Combate Naval do Riachuelo,
Estudo de Pernas para Primeira Missa no Brasil, Estudo de Mãos,
Estudo de Homem Caído Visto de Costas, Estudo de Botas,
Estudo de Homem Fugindo, Estudo de Mão Segurando Livro
e Grupo de Mulheres Assistindo a uma Solenidade.
Em abril de 1952 essas obras eram embarcadas por avião
para Florianópolis, enquanto o navio Itaberá, da
Companhia Nacional Costeira, trazia sete caixas contendo os aparelhos
de iluminação. Rodrigo Melo Franco não se
deu por vencido. Quando enviou Rusins para retirar as obras no
MNBA, fez que levasse um ofício, agradecendo e pedindo
mais alguma obra em empréstimo temporário, para
figurar na inauguração. Pois Oswaldo Teixeira lhe
entregou mais uma aquarela, Estudo de Traje.
O próprio Rusins instalou-se durante alguns meses no Lux
Hotel, em Florianópolis, para acompanhar a finalização
da reforma, a instalação dos equipamentos, a recepção
e exposição do acervo. Suas cartas-relatório
ao SPHAN são testemunhos da vida cotidiana da “nostálgica”
Florianópolis dos anos 50, “lenta” e “tediosa”,
conforme a definia. Envolveu-se, também, num périplo
atrás de outras obras de Victor Meirelles. Localizou várias,
e Rodrigo Melo Franco se empenhou pessoalmente em arrebanhá-las.
A paisagem Desterro, pertencente ao Centro Catarinense e em posse
de Alexandre Konder, no Rio de Janeiro, e um retrato de homem
em crayon sobre papel que estava em Imaruí (SC), pertencente
a Pedro Bittencourt, chegaram emprestados ao museu a tempo para
a inauguração. O Grupo Escolar Victor Meirelles,
de Itajaí (SC), cedeu um retrato do pintor, assinado por
A. Pelliciari.
O embaixador Edmundo da Luz Pinto, por sua vez, contribuiu com
duas obras, Retrato de José Maria do Vale Jr. com 13 anos
de idade e Vista Parcial da Cidade do Desterro em 1849, bem como
com a doação do livro em que Victor Meirelles havia
estudado artes (Notions pratiques sur l’art de la peinture,
enrichies d’exemples d’après les grands maîtres
des ècoles italienne, flamande et hollandaise, de John
Burnet, edição francesa de 1833). O livro possui
curiosas anotações a lápis, feitas nas margens
pelo pintor.
Enquanto isso, Rodrigo Melo Franco escrevia também a Pietro
Maria Bardi, diretor do MASP, para “solicitar a valiosa
colaboração do prezado amigo para, pessoalmente
ou por intermédio de algum de seus distintos auxiliares,
planejar a instalação adequada do pequeno museu”.
Por conseqüência, dois óleos sobre tela do acervo
do MASP, Retrato de D. Pedro II e Retrato de D. Tereza Cristina,
são emprestados à Casa Victor Meirelles, em setembro
de 1952. A devolução dessas telas será motivo
de uma extensa negociação e só acontecerá
dez anos depois. Eram as duas maiores obras expostas no ato inaugural
da casa, alocadas no andar térreo, na entrada das visitas.
A esperada inauguração da então denominada
Casa Natal de Victor Meirelles ocorreu às 16 horas do dia
15 de novembro de 1952 e foi amplamente divulgada pela imprensa
nacional. Rusins fez um discurso breve e o governador Irineu Bornhausen
cortou a fita inaugural.
Dez anos passaram até a casa receber nova manutenção.
Em 1961 as paredes foram caiadas, algumas tábuas do forro
e do soalho, atacadas por cupins, substituídas; as redes
elétrica e de água, revisadas. Novas telas vieram,
por comodato, do MNBA: Passagem de Humaitá, Cabeça
de Menina, Invocação à Nossa Senhora do Carmo
e Batalha dos Guararapes (esboço). Mas permaneceram duas
rachaduras nas paredes e, cinco anos depois, já ocorria
outra intensa troca de cartas e ofícios entre as repartições
públicas, sobre a necessidade de uma reforma. Segundo o
seu zelador, Irineu dos Santos Lessa, “a casa tem diversos
barrotes que estão podres e precisam ser trocados, assim
como também a pintura da casa está caindo, o telhado
precisa ser todo retelhado por causa das goteiras, quanto à
instalação [elétrica] precisa ser mudada,
pois já arrumei três curtos”. A Casa de Victor
Meirelles estava já sob a guarda do 4º Distrito do
SPHAN em São Paulo, cujo diretor era Luis Saia, e sob sua
direção ela foi restaurada, com projeto do arquiteto
Cyro Illidio Corrêa de Oliveira Lyra. As obras são
iniciadas em 1969 e o museu é fechado, para ser reaberto
em 22 de novembro de 1974.
Uma importante doação enriqueceu o acervo da casa
nesse período. Em 1970, a família do almirante Lucas
Boiteaux, cumprindo um acerto feito entre ele e Rodrigo Melo Franco,
entrega um conjunto de peças de e sobre Victor Meirelles.
Com o gesto, são incorporados ao museu uma aquarela, Vista
do Desterro, e seis desenhos: Croquis da Batalha de Guararapes,
Grupo de Soldados em Combate, Estudo de Braço de Soldado
Caído, Estudo de Braços e Estudo de Mãos.
Há também dois retratos de Victor Meirelles: uma
aquarela do pintor Pedro Peres, que tinha sido seu aluno na Academia
Imperial de Belas Artes, e uma litografia de Valle. A coleção
incluía ainda uma monografia sobre o pintor, escrita por
José Leão em 1879; uma coleção de
recortes de revistas e jornais e seis fotografias, com imagens
de pinturas, da casa natal, da árvore usada como modelo
em Primeira Missa no Brasil e do próprio Victor Meirelles
idoso, com a assinatura do próprio.
Devido à reforma, em 24 de julho de 1970
o acervo do museu, com 27 obras, foi depositado no MASC, que deveria
guardar as obras “por um ou dois meses” (11).
Elas, porém, ficaram quase três anos, sendo lá
expostas por três vezes ao público. Foram devolvidas
em 5 de março de 1973 e encaminhadas ao laboratório
de restauração do SPHAN no Rio de Janeiro, a cargo
do professor Edson Motta, de onde retornam em março de
1974. Nesse mesmo período, a crítica Aracy Amaral
viera a Florianópolis a convite da Universidade Federal
de Santa Catarina (UFSC), em 1972, e Saia lhe pediu sugestões
para a reinstalação da Casa de Victor Meirelles.
Ela sugere restaurar as obras – o que em seguida foi feito
– e instalar um centro de documentação. Faz
também considerações a respeito de sua forma
e funcionamento e enfatiza a necessidade de o museu ganhar mais
vida e contato com a comunidade:
[...]
a casa de Victor Meirelles não deve constituir-se em
museu estático, devendo, ao contrário, transformar-se
em casa de cultura, que propicie, não apenas o conhecimento
do artista cuja obra abriga, porém, numa eventual ampliação
de seus objetivos, na base de centro de documentação,
transformar-se em local de pesquisa da arte de todo o século
19 no Estado de Santa Catarina. (12)
Algumas
dessas sugestões, que de fato estavam já no cerne
do projeto de museus lançado nos anos 1930, só vão
se concretizar nos anos 1990. Nesse intervalo, as atividades culturais
na Casa de Victor Meirelles seguiram um ritmo acanhado e tanto
o acervo como a casa ficaram, ano após ano, expostos ao
desgaste impiedoso do tempo. Desde a inauguração,
o museu ficou sob a vigilância direta de zeladores, que
tinham grande entusiasmo pelo trabalho, mas pouca experiência
com museologia. Eram pessoas como Irineu dos Santos Lessa, que
morou na casa e cuidou dela de 1962 a 1971, fazendo-lhe pequenos
consertos; Ecy de Alvarenga Boechat Pereira, funcionária
de 1971 a 1982, que com toda a família atendia as visitas
à casa, e Arnaldo Heitor Müller, funcionário
entre 1982 e 1991. O muito que Ecy Pereira podia
fazer era informar por carta que “possivelmente devido à
umidade os quadros pertencentes ao acervo desta casa [...] vêm
demonstrando alterações que consideramos muito graves”
(13), embora ela cuidasse pessoalmente de
removê-los das paredes todas as noites.
Em 1982, ano do sesquicentenário de Victor Meirelles, a
casa foi fechada por alguns meses para pequenos reparos e faixas
de cortiça paliativas foram colocadas nas paredes, para
que os quadros não encostassem na umidade. Ao mesmo tempo,
uma grande exposição comemorativa, com uma seleção
de novas obras provenientes do MNBA, foi organizada no MASC. Depois
da exposição, essas obras permaneceram na Casa Natal
de Victor Meirelles: Cristo Sobre as Ondas, O Naufrágio
da Medusa, Mulheres Suliotas, Retrato de Senhora com Traje de
1870, Cabeça de Homem, Casamento da Princesa Isabel, Cabeça
de Mulher, Estudo de Traje Feminino, Estudo de Traje Masculino
e Degolação de São João Batista.
Ainda em 1982, o Programa Nacional de Museus lançou os
fundamentos de uma nova proposta museológica para o país,
priorizando os aspectos relativos à segurança, modo
de exposição e preservação dos acervos
e lançando a semente para uma grande guinada no destino
do Museu Victor Meirelles, ocorrida na década seguinte.
Em 1986, uma grande exposição, com novas obras de
Victor Meirelles vindas do MNBA (oito aquarelas, oito desenhos
e treze óleos) veio a Florianópolis, mas ficou instalada,
por três semanas, no MASC. E, de 1983 a 1989, o espaço
da Casa onde moravam os zeladores se torna a primeira sede estadual
do SPHAN/Pró-Memória, que desde então é
responsável pelo museu e está sob a direção
do arquiteto Dalmo Vieira Filho, atual superintendente da 11ª
Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional, Santa Catarina (11ª
SR/IPHAN/SC).
Em 1991, os múltiplos problemas de degradação,
tanto do edifício quanto do acervo do museu, fizeram com
que a equipe da 11ª Superintendência, em conjunto com
representantes de vários segmentos da sociedade e a Associação
dos Amigos do Museu Victor Meirelles (AVM), elaborasse um plano
de revitalização, lançando o Projeto Victor
Meirelles. Nesse aspecto, foi significativa a criação
da AVM, que se tornou mantenedora do museu, numa proposta pioneira
em Santa Catarina (14). Nesse mesmo período,
Lourdes Rossetto, técnica em Assuntos Culturais da 11ª
SR/IPHAN/SC, assumiu a direção da casa e do projeto,
iniciando a implantação de uma proposta de transformação
conceitual e estrutural ampla, envolvendo a preservação
arquitetônica, a preservação do acervo, a
expansão da área e a dinamização do
museu.
Para deslanchar o projeto, o museu foi fechado à visitação
pública em dezembro de 1991 e todo o acervo transferido
para a Reserva Técnica do Museu Histórico de Santa
Catarina, onde permaneceu e foi eventualmente exposto até
a reinauguração, em 18 de agosto de 1994. A reforma
arquitetônica foi realizada em diversas etapas, com novo
projeto do arquiteto Cyro Lyra, em parceria com o professor Alcídio
Mafra de Souza, diretor por dez anos do MNBA. Entre outras intervenções,
foram restauradas as esquadrias e o telhado, renovadas as pinturas,
refeitas as redes elétrica, telefônica e hidráulica
e implantado um sistema de drenagem, eliminando a umidade das
paredes. Para dar maior visibilidade e divulgar o museu, um mural
foi pintado na empena cega da casa pelo artista plástico
Marcos Bento, em agosto de 1993, trazendo uma releitura da obra
mais popular de Victor Meirelles, Primeira Missa no Brasil.
Ao mesmo tempo, foi elaborado um programa de manutenção
e conservação preventivas do prédio e do
acervo. Para tanto, estabeleceu-se um projeto de monitoramento
e controle das variáveis ambientais, que mantém
constantes, dentro dos padrões internacionais recomendados,
a umidade relativa, a temperatura e a ventilação,
e instalaram-se filtros que reduzem a contaminação
atmosférica nos ambientes. Além disso, foram implantados
sistemas de segurança contra roubo e incêndio e um
projeto luminotécnico, para controlar a radiação
das luzes natural e artificial, projetados pelo engenheiro-eletricista
Leonardo Barreto de Oliveira, da 13ª SR/IPHAN/MG.
O museu também foi todo reestruturado em seu funcionamento.
As salas do andar superior, antiga residência da família,
foram destinadas à exposição das obras do
acervo, em rodízios que procuram demonstrar as fases da
produção artística do pintor. Já o
térreo foi transformado em espaço para exposições
temporárias contextualizadas, promovendo a divulgação
de artistas novos e consagrados. Entre as diversas mostras realizadas,
constam as de nomes como Martinho de Haro, Rodolfo Amoedo, Lasar
Segall, Sérgio Ferro, Amílcar de Castro, Osvaldo
Goeldi, Paulo Gaiad, Di Cavalcanti, Elke Hering, Lívio
Abramo, Max Moura, Hassis, Helô Espada, Tarcísio
Mattos, Marília Rodrigues, Lú Pires, Djanira e Fernando
Lindote, entre outros dos cenários nacional e internacional.
E para aumentar a área de atuação do museu,
a Rua Victor Meirelles foi fechada ao trânsito de veículos
e transformada em um largo cultural, conforme o Decreto-Lei municipal
nº 5.253/93. Ali, muitas atividades artísticas vêm
sendo realizadas, como as intervenções Cheios e
Vazios, das artistas Flávia Fernandes e Clara Fernandes.
Finalmente, o próprio nome do local mudou: em vez de Casa
Natal de Victor Meirelles – que fazia pensar na exposição
de objetos pessoais do pintor – tornou-se Museu Victor Meirelles
(MVM), firmando a sua natureza de museu de arte.
No que se refere à preservação do acervo,
além do programa de controle ambiental, que ameniza a deterioração
das obras, foi estabelecida uma proposta de tratamento de curto,
médio e longo prazos. O trabalho de conservação,
que vinha sendo realizado sob a orientação de Aldo
Nunes, do Ateliê de Conservação – ATECOR/FCC,
e pela conservadora Angela Paiva, do IPHAN, passou a ser feito
sistemática e preventivamente pela restauradora Susana
Aparecida Cardoso Fernandez. Parte das obras sobre papel, que
precisavam de tratamento mais urgente, foram encaminhadas ao Laboratório
de Restauração de Papel do MNBA e restauradas.
Desde que o museu reabriu, em 1994, suas atividades não
se restringiram mais às mostras de arte e a instituição
passou a atuar como centro cultural permanente de educação,
desenvolvendo um programa de ação educativo-cultural,
com vários projetos. Em parceria com a Secretaria Municipal
de Educação de Florianópolis, foi montado
o projeto “Museu vai à Escola/Escola vai ao Museu”,
que é coordenado pela arte-educadora Roselene Maria Peixer
e atende alunos e professores das redes pública e privada
de ensino. Outro projeto, chamado “Vivendo Victor Meirelles”,
abrange as escolas da rede estadual de 1º grau e é
também pensado como meio de disseminar o conhecimento sobre
a obra e a vida do artista. Ele inclui uma exposição
itinerante de reproduções do acervo do museu, que
visita as escolas, e um material pedagógico. Ao mesmo tempo,
o museu atua como centro de formação profissional,
de intercâmbio de informações, de estudo e
pesquisa dos princípios técnicos e científicos
atuais da museologia e da conservação preventiva,
de fomento e difusão da vida e obra de Victor Meirelles.
E há, ainda, o programa de educação patrimonial,
que atende toda a comunidade e os turistas, com visitas monitoradas
às exposições.
A agenda cultural do MVM inclui ainda mostras de vídeo,
palestras, cursos, seminários, atividades artísticas
de diferentes linguagens, como música, teatro, dança,
literatura e cinema, além de encontros com artistas. Toda
a agenda é elaborada com a participação efetiva
da sociedade, através da AVM e com patrocínio de
empresas. Com tudo isso, pouco a pouco o museu e os projetos que
gravitavam ao seu redor passaram a ser tema de estudo em dissertações
e teses de mestrado e doutorado. É preciso destacar que,
durante toda a sua história, o museu operou com apoio de
pessoal cedido pela Prefeitura Municipal de Florianópolis,
que trabalhou em sintonia com a equipe do IPHAN. Um convênio,
renovado em 1997 entre a Prefeitura e a 11ª SR/IPHAN/SC,
prevê a cessão de funcionários para atuar
no museu, e outro convênio com o Programa Voluntários
em Ação, cede pessoal voluntário.
Hoje o museu abrange, além da casa natal, um andar de um
prédio vizinho, com aproximadamente 178 metros quadrados
de área. O imóvel, com características de
construção arquitetônica da década
de 50, foi cedido por comodato pelo Governo do Estado de Santa
Catarina, pela Lei Estadual nº 10.421, assinada em maio de
1997. O espaço foi integrado fisicamente ao museu e destinado
à instalação da Reserva Técnica, para
a guarda, proteção e segurança do acervo,
e da Sala de Conservação e Montagem de Exposições,
destinada às funções específicas às
obras de arte e para abrigar instrumentação analítica
simples, para análises de materiais histórico-arquitetônicos.
Ali também se instalou o setor administrativo e a Sala
Multiuso, com auditório, espaço para atividades
educativas e uma pequena biblioteca. O Programa de Apoio a Museus
da Fundação Vitae financiou, em 1998, a aquisição
de mobiliário para os espaços da Reserva Técnica
e da Sala de Conservação. O projeto dessa área,
realizado por Lourdes Rossetto, com a colaboração
da arquiteta Maria Isabel Kanan, priorizou todos os aspectos técnicos
de funcionalidade, segurança e controle ambiental requeridos
para uma reserva técnica, como já havia sido feito
em relação às salas de exposição
da casa natal. A museóloga Mônica Xexéo, do
MNBA, realizou o inventário documental e a catalogação
do acervo, assim como a revisão e uniformização
dos títulos da obras de Victor Meirelles.
Nesse entretempo, a busca pela expansão do acervo não
parou e, em setembro de 2000, se concretizou a aquisição
da tela Vista do Desterro, atual Florianópolis (1847),
descoberta em 1984 pelo diretor do MNBA, Alcídio Mafra
de Souza, na sacristia da Igreja da Nossa Senhora do Rosário
e de São Benedito, em Florianópolis. Sem assinatura,
a pintura estava bastante deteriorada quando foi levada ao MNBA
em 1985, onde sua autoria foi definitivamente reconhecida, conforme
parecer de Gilberto Ferrez, do Conselho Consultivo do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional, sendo também
restaurada e tombada. Esteve desde então em exposição
no Museu Victor Meirelles, para ser finalmente incorporada ao
acervo em troca de serviços de restauração
dos retábulos da igreja.
Mesmo a velha casa continuou oferecendo surpresas. Em julho de
2001, durante a recuperação do piso de madeira do
andar térreo do museu, evidenciou-se a existência
de material arqueológico no local e foram feitas escavações,
para recuperar informações acerca dos antigos usos
daquele espaço. Foram encontrados vários pisos de
chão batido, até o original, com material ósseo
de bovinos – a rua, afinal, já se chamou do Açougue
– e numerosos artefatos em cerâmica, vidro e metal,
além de uma estrutura em alvenaria de pedras argamassadas.
O material foi catalogado e acondicionado no escritório
da 11ª SR/IPHAN/SC, em Laguna.
Recentemente, o museu ganhou o Projeto de Reabilitação,
Ampliação e Revitalização do Largo
Victor Meirelles. Desenvolvido pelo arquiteto suíço
Peter Widmer, que traz na bagagem uma larga experiência
com museus, o projeto propõe maior acessibilidade à
casa, acrescentando-lhe novas áreas do edifício
adjacente e enfatiza a integração do patrimônio
histórico à paisagem urbana contemporânea.
A 11ª SR/IPHAN/SC solicitou formalmente ao governo estadual,
em julho de 2002, a cessão dos dois andares restantes do
prédio, onde já funciona a reserva técnica,
o que ampliaria em aproximadamente 350 metros quadrados a área
total do museu. Com isso, a casa original poderá ser reservada
ao acervo de Victor Meirelles, enquanto o novo espaço abrigaria
as exposições temporárias, as oficinas de
arte, o auditório, a biblioteca e a videoteca. Estão
previstos, também, um elevador para o acesso de portadores
de necessidades especiais, integração dos dois edifícios,
uma cafeteria e uma loja com produtos com a marca do museu. Trata-se,
em síntese, de um projeto focalizado na idéia de
ampliar cada vez mais o espaço e o papel do Museu Victor
Meirelles no cenário artístico-cultural.
Notas:
1
. Surgiu uma duplicidade no modo de escrever o nome de Victor
Meirelles, desde o Acordo Ortográfico de 1943. Pelas regras
do acordo, a grafia correta seria “Vítor Meireles”
e é assim usada extensamente nos documentos, cartas e ofícios
escritos desde aquela data. A 11ª SR/IPHAN, cujo escritório
em Florianópolis é responsável pelo Museu
Victor Meirelles desde 1983, optou por padronizar a grafia como
“Victor Meirelles”, tal como aparece na certidão
de nascimento e como o próprio pintor assinava suas obras.
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2. Por exemplo, o ofício de nº 117, de 24 de março
de 1939, de Rodrigo Melo Franco, do SPHAN, ao Ministro da Educação
e Saúde, Gustavo Capanema. Este e todos os documentos citados
constam do Arquivo da 11ª SR/IPHAN/SC. <<
3. Trecho do aditamento de 11 de abril de 1939 ao ofício
nº 117, supracitado. <<
4. Ofício de Rodrigo Melo Franco ao ministro Gustavo Capanema,
em 20 de julho de 1945. <<
5. Relatório de Alfredo Teodoro Rusins a Rodrigo Melo Franco,
de 11 de julho de 1945. <<
6. Conta Rusins: “O homem é um vencido pela sorte
adversa. A sua relojoaria desaparecera num incêndio sofrendo
prejuízo total. Tentara mais tarde suicidar-se mas a bala
não o atingiu mortalmente, encontrando-se ainda localizada
no crânio, razão pela qual apresenta contração
facial defeituosa e dificuldade em falar”. Idem. <<
7. Relatório de Alfredo T. Rusins de 11 de julho de 1945.
O engenheiro Raul Bastos fez o laudo inicial para a reforma em
29 de novembro de 1947 e constatou: “O prédio em
questão acha-se em péssimo estado de conservação,
aproveitando-se apenas as paredes externas e algumas internas”.
<<
8. Plano de Obras de Conservação e Adaptação
para Museu, assinado por Paulo P. Barreto, da seção
de Obras da SPHAN, em 5 de agosto de 1948. <<
9. Carta de Rodrigo Melo Franco a Oswaldo Teixeira, Rio de Janeiro,
4 de abril de 1951. <<
10. Ofício de Oswaldo Teixeira, diretor do MNBA, ao Ministério
da Educação e Saúde, Rio de Janeiro, 17 de
abril de 1951. A autorização do ministério
foi dada em 28 de abril de 1951. <<
11. Carta de Aldo João Nunes, diretor do MASC, a Luis Saia,
em 19 de setembro de 1972. Aldo Nunes escreve várias vezes
a Saia solicitando que as peças sejam relocadas: “[N]ão
nos é possível protelar mais a devolução
das obras do citado artista”, diz Nunes. “O depósito
de nosso Museu, além de não comportar mais obras,
em virtude das aquisições feitas durante os últimos
anos, não possui ambiente adequado.” <<
12. De Aracy Amaral, no “Relatório do parecer para
funcionamento e montagem da Casa de Victor Meirelles”, 23
de junho de 1972. <<
13. Em carta a Luis Saia, em setembro de 1978. <<
14. A Associação Victor Meirelles, criada em 1991,
presidida durante dez anos por Armando Luiz Gonzaga e, atualmente
por Ruth Correa, é uma sociedade civil de fins culturais
e não-lucrativos, formada por representantes da sociedade
civil e de entidades públicas e privadas. Seus objetivos
básicos, que constam nos artigos 1 e 2 do seu estatuto,
são: 1) Zelar pela preservação do prédio
do Museu Victor Meirelles; 2) Promover e apoiar atividades artístico-culturais;
3) Promover o intercâmbio artístico-cultural em níveis
nacional e internacional; 4) Angariar subvenções
ou doações destinados ao Museu Victor Meirelles.
A entidade não possui ingerência técnica nas
atividades museológicas, mas participa nas decisões;
é mediadora nas relações do museu com os
setores público e privado e personifica o papel da sociedade
na preservação e estímulo da cultura.
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