Segurança
Contra Roubos, Incêndios e Intempéries em Bens
Culturais
Leonardo
Barreto Oliveira
Os temas abrangidos pelo título são complexos,
visto que proposições corretas de projetos necessariamente
envolverão várias áreas de conhecimento,
bem como demandarão a aplicação de uma
grande variedade de equipamentos específicos. Pensei
bastante na melhor maneira de abordar estas questões
de forma produtiva, no tempo disponível, em um seminário.
Entendi ser mais interessante explanar rapidamente sobre algumas
especialidades, focando nas particularidades de alguns desses
projetos, como por exemplo: SPDA - Sistemas de Proteção
Contra Descargas Atmosféricas, Especificação
e Locação de Unidades Extintoras, Detecção
Eletrônica de Intrusão e Fumaça. Objetivo,
desta forma, passar informações a respeito desses
sistemas de maneira a ajudar os profissionais da área
de Conservação e Preservação, que
aqui estão, em sua interface com os projetistas específicos
dessas áreas. Dotando-os de argumentos para que, ao solicitarem
projetos destas especialidades, estejam sintonizados com as
técnicas mais modernas.
Este conhecimento é importante visto que muitas vezes,
apesar de dominar determinada técnica, o engenheiro ou
técnico de segurança não consegue vislumbrar
sua aplicação dentro de nossas edificações,
devido ao fato de não estar envolvido com a questão
específica da conservação do patrimônio.
Cabe-nos então chamar a atenção para algumas
particularidades, que devem ser consideradas nesses projetos,
para que se tenha um projeto mais adequado ao uso e mais esteticamente
adequado ao monumento. Iniciarei a fala tratando dos elementos
externos a edificação, portanto o primeiro será
a instalação de SPDA. Era muito freqüente,
principalmente até a década passada, ser procurado
por outros técnicos com a seguinte solicitação:
“Necessito instalar um Sistema de Alarme no museu em que
trabalho”. Demanda muito justa, quase sempre necessária,
e também atrativa, visto a queda acentuada de custo destes
equipamentos em relação as décadas de 70
e 80. Contudo, cabia-me a colocação de que de
qualquer providência deveria ser precedida de uma avaliação
das condições gerais da edificação
a ser inserido o sistema de alarme. Na maioria esmagadora dos
casos, do ponto de vista técnico, era inadequado instalar-se
estes sistemas, já que a ausência de SPDA e as
instalações elétricas muito precárias
não iriam assegurar a durabilidade do equipamento. Sistemas
Eletrônicos de Detecção de intrusão
e fumaça são muito sensíveis e invariavelmente
sujeitos a dano devido a instalações elétricas
mal executadas e a variações de tensão
em virtude de surtos provocados por descargas atmosféricas
diretas ou provenientes de queda nas linhas de distribuição
de energia. Ao desconhecer-se estes fatos e instalar-se o alarme,
uma série de problemas surgiam comprometendo o funcionamento
do equipamento de segurança eletrônica. Tal constatação
indicou que uma intervenção deveria começar
pelos SPDA, obviamente nos casos em que a norma da ABNT pertinente
recomendar sua instalação. Hoje estes sistemas
avançaram muito, principalmente na questão da
estética, sendo praticamente imperceptível. Assim
atualmente podemos ter instalações rigorosamente
dentro das normas de segurança com relação
a proteção contra descargas atmosféricas
e ao mesmo tempo integrada plasticamente ao monumento. Não
cabe aqui descer a detalhes das características de um
pára-raios, mas basicamente ele é composto pelo
seu sistema de captação, que são os terminais
aéreos, as descidas, que são os cabos que conduzirão
a energia captada até as hastes de terra, e o seu aterramento,
que propiciará o escoamento para o solo. O captor Franklin
tradicional é o elemento mais perceptível, composto
geralmente por uma haste metálica com um terminal de
três pontas, cuja área a ser protegida tem a forma
aproximada de um cone. É indicada em estruturas com significativa
elevação, contudo, pelo exposto acima, sua proteção
no caso, por exemplo, de uma torre de igreja, seria basicamente
a própria torre, ficando o restante da edificação
desprotegida. Neste caso deve-se complementar a proteção,
com o outro método, designado por Gaiola de Faraday,
que utiliza o conceito de uma malha de cabos sobre as estruturas,
de forma a promover uma “blindagem” sobre a edificação.
A proteção será mais efetiva quanto menor
for o espaçamento entre cabos. Para o caso de edificações
de valor cultural, a malha estabelecida é de 10 x 15
metros. Tanto para o caso da torre como para o telhado a introdução
destes elementos pode-se dar de forma discreta. É questão
aplicar-se corretamente os conceitos. Iniciando pela torre,
se o terminal destina-se basicamente somente à proteção
desta elevação, basta que o terminal seja minimamente
saliente ao ponto mais elevado.
Será o suficiente para captar a energia. Outra questão
é que o terminal não necessita de três pontas,
comprovou-se que o efeito é insignificante quanto comparado
ao desempenho de uma ponta apenas servindo de captor. O somatório
desses pequenos detalhes é que irão fazer a diferença
no resultado final. A captação por cabos esticados
sobre o telhado também pode ser minimizada, visto que
os condutores podem ser instalados diretamente as telhas utilizando-se
presilha de cobre fixada por bucha e parafuso (deve-se ter cuidado
com a vedação dos furos). Assim os cabos praticamente
não serão vistos, contribuindo para a diluição
visual do sistema. Com relação às descidas,
hoje pode-se executar as descidas completamente embutidas na
alvenaria. Portanto, os espaçadores, elementos muito
ostensivos que eram utilizados nas paredes e que lamentavelmente
ainda são muito freqüentes mesmo em projetos novos,
estão completamente desatualizados com relação
às normas. No caso das edificações em foco
o seu uso é completamente equivocado. Do ponto de vista
conceitual é facilmente explicável a desobrigação
do uso de espaçadores. A ordem de grandeza de uma descarga
atmosférica varia de 10 mil a 100mil volts, deste modo
não será aquela borracha reciclada utilizada na
terminação do espaçador que irá
garantir o isolamento da estrutura. O que efetivamente vai proteger
a edificação será um dimensionamento adequado
de cabos para que a energia captada flua para terra de forma
correta. Os cabos de descida podem ser utilizados de forma embutida
ou aparente, diretamente fixados na parede e pintados caso deseje-se
um melhor mimetismo. Ao serem instalados diretamente sobre pedra
é importante que os pontos de fixação ocorram
no rejunte das pedras para evitar os danos. Atualmente os modernos
prédios utilizam a própria ferragem da edificação
como elemento de escoamento da energia da descarga atmosférica
captada.
O último elemento do sistema a ser abordado é
o sistema de aterramento. Na norma em vigor é exigido
que a edificação seja circundada por um cabo de
aterramento, interligando todas as descidas e hastes. Este procedimento
é importante pois garante uma distribuição
mais uniforme da energia na captação e descida,
bem como em sua dissipação no solo. Deve-se frisar
que todos os sistemas de aterramento de uma edificação
devem estar interligados ao SPDA para que não haja diferença
de potencial – instalações de telefonia,
informática, elétrica, etc. O aparelho adequado
para verificação da correção do
sistema de aterramento, ou seja, medir se está havendo
um bom escoamento da energia, é designado por terrômetro.
Observe-se que os procedimentos de medição também
são normatizados pela ABNT. Recentemente, surgiram no
comércio hastes de terra (copperweld) não adequadas
ao uso e chamadas de hastes de baixa camada. Tais materiais
devem ser evitados e exigir-se dos instaladores as hastes corretas,
identificadas pelo torneamento nas bordas, permitindo ver a
camada de cobre sobre a haste de aço.
Finalizando este item, a norma da ABNT em vigor é a NBR
5419 de fevereiro de 2001. Passando para o tópico de
instalações elétricas, tentarei dar uma
orientação muito básica em relação
a sua aplicação dentro das edificações
sob estudo. O primeiro ponto refere-se aos condutores, elemento
fundamental nas instalações. Existe uma gama enorme
de tipos, dentre esses, em particular, chamaria a atenção
para os referentes a linha anti-chama e também para os
mais resistentes ao calor denominados, pelo fabricante Pirelli,
de linha Afumex. É fundamental que se tenha cuidado na
especificação dos cabos, principalmente se levar-se
em conta a acentuada queda de qualidade nos equipamentos elétricos,
incluindo os condutores. Considerando-se que os fios e cabos
são a alma da instalação elétrica,
condutores de qualidade inferior serão um ponto de elevado
risco para o monumento. Devido a dificuldade de execução
das instalações elétricas em diversas edificações,
devido a suas características construtivas, é
recomendável a utilização de cabos flexíveis.
Os eletrodutos têm a função não só
de proteger os condutores de danos físicos, como também
contribuem para a segurança em virtude de reduzirem a
quantidade de oxigênio disponível. Para a instalação
de eletrodutos, recomendo que sejam utilizados os de PVC rígido,
embutidos sempre que o revestimento de parede permitir. Caso
venham a danificar estruturas como, por exemplo, pau-a-pique
ou pedra, devem ser instalados de forma aparente, procurando
a junção de paredes e pintados na cor da estrutura
em que estiverem fixados. Se a instalação demandar
elevada flexibilidade de eletrodutos, podem ser utilizados nos
trechos de difícil acesso os de PVC do tipo maleáveis
ou flexíveis, contanto que possuam suficiente rigidez
mecânica e características anti-chama, como os
de PVC rígido. Com vistas a facilitar a manutenção,
deve-se identificar por cor, nos locais não visíveis
ao público (sobre o forro, atrás dos altares,
etc), os eletrodutos destinados aos vários usos –
eletricidade, telefonia, segurança, etc. As caixas de
derivação devem também ser objeto dos mesmos
cuidados, ou seja, utilizar PVC rígido, visando garantir
sua longevidade. É recomendável que as caixas
instaladas sobre o forro sejam dotadas de tampas, pois, no caso
de uma eventual entrada de água, evita-se que as mesmas
propiciem que a água infiltre-se nos dutos, comprometendo
a rede elétrica. Interruptores e tomadas devem possuir
a mesma cor da superfície em que estiverem instalados
e possuir design que demonstre a sua contemporaneidade. Em particular,
tratando-se dos interruptores, a observação é
que sejam instalados somente nas áreas em que seja necessário
comando local da iluminação, nos demais casos
como na nave, capela mor, coro, etc, o controle pode ser feito
a distancia. Nunca devem ser utilizados disjuntores, equipamentos
de proteção, para realização destes
comandos, visto não serem fabricados para realização
de número elevado de manobras, podendo, se utilizados
de forma equivocada, não atuarem adequadamente na proteção
dos circuitos. Os interruptores para comando a distância
podem ser agrupados em quadros próximos aos quadros de
distribuição de circuitos. Cuidados especiais
com os equipamentos auxiliares de iluminação devem
ser uma constante tanto na fase de implantação
quanto na manutenção dos sistemas. Reatores, ignitores,
transformadores, mesmo os eletrônicos, não devem
ficar em contato com material combustível. Os reatores
além de não poderem ser instalados em vitrines
de madeira sem o devido cuidado, não podem ser fixados
em seu interior, pois o calor gerado irá alterar o microclima
interno. Finalizando as instalações, chamaria
a atenção para a locação do padrão
medidor de energia. Este não deve ficar fora da edificação,
visto assim permitir o corte planejado da energia. Para museus
e igrejas que dispõem de sistema de alarme, tem que considerar-se
que a manutenção no sistema alternativo de energia
por vezes é falha. Portanto um corte na alimentação
principal deixaria estas edificações sem a proteção
eletrônica. Parece-me lógico, portanto, que o padrão
medidor, nos casos que requer segurança, fique dentro
da edificação, em local de acesso restrito. O
problema relativo a leitura do consumo de energia, levantado
por muitas concessionárias para impedir a instalação
interna do padrão medidor, em breve será superado,
com a verificação a distância do gasto energético
por meio de novas tecnologias (por exemplo PLC, ou seja, o sinal
conduzido pela própria linha de energia). Outro ponto
com relação ao padrão medidor, é
que os condutores de alimentação sejam instalados
de forma subterrânea impedindo também o acesso
a cortes, e tendo a vantagem de diminuir a poluição
visual provocada por cabos no entorno da edificação.
É importante que a intervenção nas instalações
elétricas ocorra de forma planejada e sincronizada com
outros eventuais trabalhos necessários na área
de arquitetura ou estrutura. Passando a Detecção
Eletrônica de Intrusão e Fumaça, não
será possível detalhar cada tipo de equipamento
disponível no mercado, portanto, tratarei de observações
básicas sobre os sistemas. Iniciarei ponderando que o
primeiro quesito na escolha do tipo de equipamento a ser especificado
é a possibilidade de realização de uma
manutenção adequada, lembrando que quanto mais
sofisticado o equipamento mais cara será sua conservação
em perfeito funcionamento. A maioria dos roubos em edificações
de valor cultural ou que abrigam acervos não possuem
até o momento sofisticação de planejamento.
Para evitá-los bastaria que estas edificações
possuíssem sistema de detecção em perfeito
funcionamento, ou seja, dotados de confiabilidade. O quesito
confiabilidade é de extrema importância nos sistemas
de alarme, pois se acontecem disparos falsos, a vigilância
não mais passará a atender os chamados. Em relação
aos sensores, a discussão que se impõe diz respeito
a opção por equipamentos interligados a central
por meio de fio ou através de radio-freqüência.
Cada opção tem prós e contras. Os sensores
que utilizam fios demandam maior custo de instalação
em virtude da necessidade de obras físicas na edificação
para introdução de dutos e cabos, contudo tem
custo de manutenção reduzido e elevada confiabilidade.
Já os que dispensam fios, têm instalação
muito simplificada exigindo, contudo, manutenção
sistemática, pela necessidade de troca das baterias.
É aconselhável que, se a edificação
estiver passando por obras, se opte por sensores com fio. Já
em áreas de difícil acesso de instalação,
com grande revestimento de elementos artísticos, é
mais conveniente que sejam adotados sensores sem fio. Entendo
que, face às características dos equipamentos
disponíveis no mercado e considerando-se a realidade
financeira das instituições culturais no Brasil,
o correto seja não optar-se nem por sistemas muito sofisticados,
que acarretam elevadas de manutenção, nem por
sistemas de características para uso doméstico,
em virtude da baixa confiabilidade dos mesmos. A aplicação
de CFTV - circuito fechado de televisão, como equipamento
de segurança de sistemas, tem demonstrado em meu entendimento
alguns equívocos conceituais. Em primeiro lugar o monitor
deve ser adequado para tal fim, não permitindo o funcionamento
como TV receptora de canais abertos. Em segundo lugar, equipamentos
de gravação adequados e compatíveis com
a geração pelas câmeras, que realmente permitam
uma checagem posterior dos acontecimentos. Atualmente, creio
ser sensata a opção por sistemas de gravação
digital. A opção por micro câmeras hoje
é possível e indicada para várias situações
em que é desejável a discrição de
sua instalação. Finalizando com a prevenção
de incêndios, cumpre identificar os tipos de unidades
extintoras utilizadas no Brasil. Para o uso específico
nas edificações que são objeto de foco
neste seminário, temos basicamente 3 tipos de extintores.
O AP (água pressurizada) que é o agente mais utilizado
por ser específico para materiais combustíveis
- exemplo madeira, elemento construtivo bastante utilizado em
muitas das edificações consideradas de importância
cultural no nosso país. O CO2 (gás carbônico)
que destina-se especificamente as instalações
elétricas, portanto de uso garantido em todas as edificações,
principalmente próximo aos quadros elétricos.
E o PQS (pó químico seco) indicado para materiais
inflamáveis. Este último modelo tem sido encontrado
com bastante freqüência em nossas edificações
fora do uso indicado. Cumpre esclarecer que as pinturas não
devem sofrer ação deste tipo de elemento extintor,
devido ao elevado potencial de oxidação do componente
químico utilizado, que causará enorme dano ao
acervo artístico. Outro ponto com relação
aos extintores diz respeito a sua fixação. Pondero
que o uso em parede não é indicado, pois além
de danificar o elemento artístico, caso a estrutura seja
ornada, também dificulta o uso rápido, pela dificuldade
de retirada e transporte até o local do princípio
de incêndio. O melhor será sua instalação
em carro móvel, propiciando um combate mais rápido
ao fogo. Tem-se testado atualmente a utilização
de injeção de CO2 no entre forro de igrejas e
museus, quando de detecção eletrônica de
fumaça nestas áreas. O objetivo é a extinção
ou retardo do fogo até a chegada do Corpo de Bombeiros
em virtude da dificuldade de acesso a este ponto da edificação.
Contudo este ainda é um sistema caro e que exige a disponibilidade
de espaço físico para locação dos
cilindros de CO2 a distância. Os pontos acima são
os que gostaria de colocar para discussão.