Sistema
de controle de iluminação: projetos luminotécnicos/
elétricos destinados a museus
Leonardo
Barreto Oliveira
O assunto que será hoje objeto da nossa palestra é
mais ou menos o mesmo de uma oficina realizada há aproximadamente
dois anos atrás em Laguna. Entretanto, naquela oportunidade
dispúnhamos de uma semana e esses temas foram desenvolvidos
em detalhes e com maior profundidade. Farei aqui uma rápida
passagem pelos temas propostos que são vastos, pressupondo
alguns conhecimentos anteriores, relativos a conceitos de iluminação.
Se necessário, posteriormente, no momento dos debates,
poderemos voltar a algum ponto ou alguma questão que
não tenham sido suficientemente esclarecidos em função
do tempo.
Minha formação acadêmica – Eng. Eletricista,
Licenciado em História e Mestrando na Escola de Belas
Artes da UFMG - como vocês podem perceber, é um
pouco heterodoxa. Atualmente, estou tendo o privilégio
de estar no CECOR – Centro de Conservação
e Restauração de Bens Culturais Móveis
- terminando meu mestrado, passando por uma experiência
que tem se revelado muito rica. Acredito que a questão
da interdisciplinaridade está cada dia mais em pauta,
e tem sido levada muito a sério pelo grupo de trabalho
do mestrado em Conservação Preventiva. Em particular
neste campo do conhecimento existe uma enorme interface entre
diversas disciplinas, sendo fundamental o correto gerenciamento
das diversas áreas para que a intervenção
tenha sucesso. E, para que qualquer processo de discussão
tenha êxito, é de suma importância que cada
participante entenda em profundidade o que está sendo
proposto pelo especialista de determinada área. Somente
desta maneira haverá real respeito entre os profissionais,
propiciando harmonia no grupo, gerando uma perspectiva muito
favorável de qualidade no resultado do trabalho. Concentrarei
minha fala no tema - Projeto Luminotécnico. Esta é
uma especificidade técnica que me causa certa perplexidade
pelo grau de amadorismo, e por vezes charlatanismo, ainda existente
em nosso país. Para exemplificar, muitas vezes, mesmo
sabendo-se que qualquer intervenção nas instalações
elétricas de um museu ou de uma igreja com acervo cultural
necessariamente vai passar pela anterior especificação
de uma iluminação diferenciada, o Projeto Luminotécnico
que deve acompanhar o Projeto de Instalações Elétricas,
simplesmente inexiste. Ora, o Projeto Luminotécnico é
o que vai nortear, balizar a inserção da luz no
ambiente. É comum ter-se um Projeto de Instalações
Elétricas definido e somente posteriormente pensar-se
na iluminação – tipo de lâmpada, luminária,
etc. Agindo desta maneira, estamos invertendo o processo, primeiro
se pensa na iluminação e o projeto de instalações
elétricas vem a reboque dessa preocupação
inicial com a introdução da luz. Se, no nosso
dia-a-dia, a questão da correta iluminação
se impõe como quesito importante para uma loja, para
uma indústria, etc, no caso dos museus e das edificações
tombadas que possuem acervo artístico no seu interior,
a concepção luminotécnica possui contornos
extremamente peculiares. Um Projeto Luminotécnico de
alta qualidade técnica torna-se determinante como condição
para eficácia da iluminação e para a preservação
de alguns materiais – é caso dos elementos artísticos
incorporados aos monumentos e integrantes do acervo dos museus.
Portanto, nesse projeto, que é preliminar às instalações
elétricas, define-se os objetivos a serem alcançados
com a iluminação, sendo estabelecidos os critérios
que serão utilizados. Outros pontos importantes, no tocante
aos projetos de iluminação, dizem respeito à
necessidade de realização e apresentação
dos cálculos comprobatórios dos objetivos determinados
(ou seja, dos níveis de iluminação estabelecidos)
bem como da concepção luminotécnica (por
escrito) com fundamentação teórica utilizada
pelo projetista. Existe hoje uma série de softwares,
bem precisos, que tornam este trabalho relativamente simples,
permitindo a rápida conferência do resultado a
ser obtido pelo Projeto Luminotécnico. Vários
programas de computação ajudam inclusive o pessoal
leigo, não familiarizado com os valores de iluminamento,
na visualização do resultado, com simulações
gráficas do comportamento da luz naquele ambiente. Quero
frisar, com o exposto, que é claro que uma série
de quesitos estéticos, artísticos, entre outros,
devem compor um projeto de iluminação. Contudo,
devem fundamentar-se através do cálculo adequado.
Existe uma série de balizadores em termos de quantidade
de luz, quantidade de ultravioleta, etc, que devem ser obedecidos
e demonstrados através de cálculos. Cabe lembrar
que cada fabricante tem o seu software específico, assim
ao usar uma luminária da Philips, deve-se utilizar o
software da Philips ou um programa que permita a inserção
dos dados específicos daquela luminária. É
comum os projetistas ou executores se prenderem a uma loja que
só vende determinado fabricante, visto os projetos serem
gratuitamente desenvolvidos para os clientes. Contudo, nem sempre
a solução apresentada, restrita obviamente à
linha de produtos comercializada por aquela loja, será
a mais interessante ou adequada para o espaço em estudo.
Defendo, em vista do exposto, que os Projetos Luminotécnicos
sejam realmente contratados e pagos, e não vinculados
à determinada compra. Muita importância tem que
ser dada ao exposto, para que se melhore a qualidade dos projetos,
desvinculando-os de imposições comerciais. Dentro
desse vasto mundo que são os projetos de iluminação,
nossa atenção recai especificamente sobre um segmento
muito particular que diz respeito à iluminação
destinada a ambientes em que se tenha a presença de elementos
artísticos, em exposição ou integrados
à edificação, e que seja necessária
uma proteção ou uma preocupação
maior com a questão das radiações emitidas
pelas lâmpadas. Dentro da luminotécnica, outra
vertente seria, por exemplo, a iluminação externa
dessas edificações ou a iluminação
pública dos conjuntos urbanos. Tendo em vista a delimitação
de tempo tratarei aqui somente da iluminação interna.
Feito esse balizamento, o primeiro tópico a ser colocado
é que o projeto deve nortear-se primordialmente pelos
critérios de preservação do acervo, ficando
a valorização estética dos ambientes ou
das peças condicionadas a segurança e integridade
do acervo com relação aos danos causados pela
luz. Isso pode parecer, para quem trabalha na área, até
um pouco redundante, mas a prática mostra que não
é. Existe atualmente uma tendência de se valorizar
(em função do marketing conseguido) um destaque
excessivo produzido pela luz. O que é compreensível,
visto que a luz, bem aplicada, irá produzir uma valorização
fantástica para as exposições e para o
acervo. Em termos de marketing, muitas vezes o patrocinador
exige determinados níveis de iluminamento para as exposições
que nem sempre são adequados ao acervo. A argumentação
a favor da conservação é óbvia,
pois, se não atentarmos para a questão da preservação
e somente preocupar-nos com a valorização estética
desses objetos, em curtíssimo espaço de tempo
não teremos o que expor, visto o dano provocado no acervo
que, em alguns casos extremos, chegará ao estágio
de sua completa destruição. Poucos técnicos
têm noção exata do grau de deterioração
que uma luz equivocada sob um elemento artístico pode
provocar. O caso da igreja de São Francisco de Assis,
localizada na cidade de Ouro Preto, foi um exemplo clássico
de deterioração pela luz. A utilização
indevida de projetores de vapor de mercúrio produziu
descoloramento acentuado dessa pintura, bem como surgimento
de manchas geradas pela queima da pintura, chegando ao extremo
de produzir o descascamento – desprendia-se do teto enorme
quantidade de pedaços da pintura artística. Esse
é um exemplo de como uma intervenção luminotécnica
não criteriosa traz efeitos realmente devastadores para
a obra. Outra premissa com relação à concepção
luminotécnica é a necessidade de que a iluminação
permita uma correta apreciação do acervo, buscando
não produzir distorções cromáticas.
O que vem a ser isso? Significa que, se adotarmos lâmpadas
com uma reprodução de cor muito pobre, estaremos
comprometendo a fruição da obra. Então
vejamos: considerando-se uma fachada externa de uma igreja,
o procedimento técnico correto recomenda que se faça
uma prospecção na busca da cor original da edificação
(no caso de haver sido repintada ao longo dos anos). Busca-se,
através de prospecção, qual foi a primeira
camada de tinta, a composição cromática
original dessa obra. Se, após a realização
deste trabalho, na fase da iluminação do monumento,
optar-se por uma lâmpada de vapor de sódio destinada
a iluminar sua fachada, qual será o resultado? À
noite, ficará perdida aquela referência de cor
tanto buscada. Na iluminação interna também
vigora o conceito acima, se não forem escolhidas adequadamente
as fontes artificiais de luz, as distorções provocadas
serão imensas, e aí a correta apreciação
da composição cromática fica completamente
comprometida. Importante também que a proposta luminotécnica
leve em consideração o estilo arquitetônico
e artístico da edificação. Ainda tomando
o caso das igrejas, é imperativo observar que a arquitetura
da edificação já informa sobre o comportamento
da luz no espaço. A igreja de São Francisco de
Assis, na cidade mineira de São João Del Rey,
possui estilo arquitetônico e de ornamentação
interna no qual o panejamento branco entre os ornamentos, além
do número e posicionamento das entradas de luz, propicia
uma grande profusão da radiação visível
no espaço, tendo como resultado uma iluminação
ambiente, homogênea e difusa. Por outro lado, ao compararmos
com uma igreja com definidas características barrocas,
onde existem poucas aberturas ou essas possuem tamanho reduzido,
a iluminação natural resultante produz no espaço
um jogo de claro e escuro. Assim, ao pensar-se em como iluminar
uma edificação, deve-se entender que o comportamento
da iluminação natural dentro destes ambientes
– gerado em função de suas características
arquitetônicas ou artísticas - deva ser o ponto
de partida da concepção luminotécnica a
ser proposta. Aproveitando o exemplo acima, importa também
chamar a atenção para a própria utilização
da edificação. Ou seja, o uso induz também
se pensar como deve a luz comportar-se ao ser inserida no monumento.
Explicitando melhor: se formos pensar no uso de uma igreja,
onde deve se concentrar a luz? Para onde deve ser dirigida a
atenção do espectador? Para o altar mor é
a resposta correta. Desta maneira, a quantidade de luz presente
nos segmentos da edificação – entrada, nave,
capela mor e altar mor - deve vir num crescendo, induzindo o
espectador a acompanhar com o olhar esta direção.
Tenho observado erros elementares na concepção
luminotécnica, pelo fato de não serem observadas
as normas técnicas vigentes com relação
aos níveis de iluminamento recomendados para cada tarefa
visual. No exemplo em questão, grande equívoco
pode ocorrer caso o projetista não observe os índices
recomendados para leitura, necessária quando da celebração
dos cultos. Tomei como exemplo uma igreja, mas todas as considerações
expressas acima podem ser adaptadas para outros ambientes (com
a condição estabelecida de abrigar ou possuir
elementos artísticos) mantendo a validade dos conceitos.
Com relação à preservação,
as construções cuja estrutura possui valor cultural,
o projeto de iluminação deve buscar soluções
que produzam a menor interferência possível no
monumento. No meu trabalho como servidor do IPHAN (Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional),
tenho observado que, muitas vezes, na implantação
de um museu, em edificações cuja arquitetura possui
elevado valor cultural, este fato é relevado, trazendo
graves danos ao monumento. Em oposto, também observei
situações em que a implantação de
um museu era completamente inviabilizada pela imposição
de que não houvesse interferências na edificação
– comprometimento das condições necessárias
de climatização, de iluminação,
etc. Acredito que a razão está no meio termo e
pondero sobre a necessidade de uma reflexão a respeito
da pertinência de se transformar em museus – via
de regra - espaços arquitetônicos de valor cultural
que, em sua maioria, não tem possibilidade de atender
às modernas condições técnicas necessárias
para um pleno funcionamento. Durante um bom tempo, qualquer
edificação com valor arquitetônico relevante,
possuidora de tombamento e sem destinação específica,
era transformada num espaço cultural ou museu. E aí
se criava um enorme problema (numa área com reduzidíssimos
recursos financeiros), pois, com toda a gama de necessidades
que hoje um museu requer para uma correta conservação
do acervo, em termos de equipamentos, muitas vezes era realmente
impossível conciliar a preservação do edifício
com os requerimentos de um museu. Os erros passados impõem
esta reflexão. Não estou dizendo que é
sempre um equívoco, mas as transformações
de edificações originariamente destinadas para
outro uso em museus, merecem, antes da decisão, aprofundado
estudo de viabilidade. Frise-se que atualmente a maioria dos
museus tem a sua arquitetura já projetada, visando seu
melhor funcionamento. Num país como o nosso, com dificuldades
econômicas sérias, deve-se também atentar
que os custos envolvidos nessas adequações são
consideráveis. Finalizando, com relação
à introdução da luz em ambientes em que
seja necessário o cuidado para evitar-se danos ao acervo,
ressalto três fatores: primeiro o nível de iluminamento.
Existe uma série de tabelas onde são apresentados
os índices expressos em Lux, recomendados para cada tipo
de material a ser exposto a luz. São encontradas algumas
divergências com relação a alguns autores,
mas, no geral, para pinturas a óleo e pinturas à
têmpera, por exemplo, o aceitável é no máximo
duzentos lux. Para os materiais mais sensíveis, há
uma certa concordância com relação a cinqüenta
lux. Ou seja: existem tabelamentos e orientações
com relação à quantidade de luz. Durante
um tempo se pensou até que a questão do dano fosse
provocada só pelas radiações invisíveis
(infravermelho e ultravioleta), mas a própria radiação
visível (luz) provoca danos e, portanto, deve ser controlada
dentro de determinados níveis. Importante ressaltar que,
em relação à luz artificial, produzida
pelas lâmpadas, a luz natural provoca dano significativamente
maior, pois, além de apresentar-se em maior intensidade,
também emite radiações em todos os comprimentos
de onda, pelo que seu ataque é bem severo. Outro fator
de dano refere-se ao tempo de exposição. Há
uma regra geral que diz que é preferível expor
uma peça a cem lux durante duas horas do que a duzentos
lux por uma hora. Essa consideração levou a que
hoje se considere a questão do tempo de exposição
à luz como forma de controle. Assim, modernamente, utiliza-se
como uma forma de mensuração de danos causados
por determinada exposição de um objeto, os parâmetros
lux/ hora/ ano. É uma forma de dosar o dano provocado
ao acervo pela exposição à luz, em relação
à quantidade e ao tempo. O último item, um pouco
mais complexo, refere-se à questão da composição
espectral da luz. Através do estudo do espectro eletromagnético
da lâmpada pode-se saber onde se concentra a maior emissão
da fonte e desta forma conhecer qual a quantidade de energia
agregada à luz visível. Se as emissões
de luz são mais próximas do ultravioleta, mais
energia incidirá sobre o acervo. Se mais próximas
do infravermelho, o que se pode deduzir pela composição
espectral dessa lâmpada, é que menor dano causará,
porque tem associada à cor uma energia menor. Como explicitado,
é um assunto um pouco complexo para ser abordado, sem
que previamente sejam discutidos alguns conceitos, ficando a
questão a ser aprofundada em debate. Com relação
às radiações visíveis, cabe finalizar
com a reflexão de que a luz é apenas uma parte
pequena das radiações eletromagnéticas.
Contudo, são imprescindíveis para a apreciação
dos objetos que devemos proteger e desta maneira não
podem ser eliminadas. O máximo que podemos fazer é
controlar essas radiações, objetivo a ser alcançado
pelo projeto luminotécnico. Passo agora às considerações
sobre as radiações invisíveis, especificamente
nas faixas compreendidas pelas radiações ultravioletas
e infravermelhas. Neste caso, a intenção é
a sua completa eliminação. Essa é a premissa
básica de todos os técnicos que trabalham com
iluminação pensando na questão da conservação.
Sendo algumas vezes possível, outras não, com
certeza, entretanto, sempre envolvendo soluções
com custos significativos, em relação aos recursos
destinados à área cultural. O dano produzido no
acervo em virtude das radiações invisíveis
também é um assunto extenso. Sintetizarei dizendo
que a radiação ultravioleta provoca um ataque
fotoquímico sobre os materiais, na maioria das vezes
agindo como catalisador no processo de oxidação,
e irá causar o descoloramento e alterações
cromáticas. Seus efeitos irão depender do tipo
de material sobre o qual incide e do comprimento de onda específico
da radiação incidente. Para as radiações
nos comprimentos de onda designada por infravermelhas, o dano
determinante será causado pelo calor gerado no objeto.
O efeito de contração e dilatação
do material em função do calor produzido na peça
pelo ato de ligar e desligar uma fonte de luz provocará
no acervo o problema designado por craquelê. É
importante atentar para o fato muito corriqueiro, de verificar-se,
nas igrejas e museus, acervos sendo iluminados por projetores
locados muito próximos, por vezes por equipamentos com
facho estreito, o que agrava o problema, visto a concentração
pontual de calor ser muito elevada. Ao afastar-se as fontes
e/ou optar-se por equipamentos de facho aberto, os feixes ficarão
mais dispersos e a concentração pontual será
menor. Muitas vezes o simples afastamento de determinadas fontes
de luz que emitem muito infravermelho pode resolver problemas
significativos. Para os índices de infravermelho aceitáveis,
pode ser utilizado como balizamento o nível de iluminamento
permitido. Os cuidados que envolvem a exposição
de acervos em papel é um exemplo que abrange os danos
provocados pelos dois tipos de radiação em questão
- UV e IV. O ultravioleta provocará o descoloramento
e o infravermelho provocará movimento no suporte e, com
isso, danos. Nesse ponto cabe um adendo na questão tratada
para sucintas informações a respeito das fontes
de luz. Basicamente, existem dois tipos de lâmpadas, sendo
o primeiro constituído pelas incandescentes, que produzem
luz através de um filamento que é levado à
incandescência. Compõem este grupo as lâmpadas
incandescentes e as lâmpadas halógenas. Nessas
lâmpadas, a própria forma de se gerar luz já
indica qual o problema que essa lâmpada irá apresentar.
Ou seja: por ser uma fonte onde se produz basicamente calor
e não luz, a essa lâmpada estará associada
à questão do infravermelho. Outro tipo de lâmpada
é a de descarga, onde a luz é produzida através
da excitação dentro do tubo de átomos que,
por meio de choques, irão produzir radiação
ultravioleta que, por sua vez, excitará o pó que
está revestindo internamente o tubo da lâmpada
fluorescente, gerando luz visível. A fonte nesse caso
é de radiação UV, que posteriormente é
convertido em luz. As lâmpadas de descarga, deste modo,
associam-se de modo prioritário a elevadas emissões
de UV. Voltando a tratar da questão da emissão
e controle da radiação UV, existem atualmente
equipamentos – ultravioletímetros - capazes de
medir a quantidade de radiação ultravioleta, tanto
a que é emitida por determinada fonte de luz, como a
que incide sobre a superfície em análise. O laboratório
de pesquisa do CECOR adquiriu recentemente o aparelho que acredito
ser o mais sofisticado existente hoje no Brasil, por possuir
três diferentes tipos de sensores que permitem, dentro
da faixa de radiação do ultravioleta, aferir sub-faixas.
Para a radiação ultravioleta o nível recomendado
internacionalmente limita-se em 75 microwatts por lúmem.
Este ponto tem sido bastante discutido, sendo um dos elementos
de debate em minha dissertação de mestrado. Na
verdade, ao estabelecer-se o valor de 75 microwatts por lúmem,
delimita-se o percentual de UV máximo permitido em uma
emissão de luz, ou seja, o UV que está sendo emitido
pela fonte. Mas não é esse o ponto que nos interessa.
A questão da preservação do material só
é corretamente definida a partir da quantidade de UV
que efetivamente está incidindo sobre a superfície.
Essa evolução nos conceitos pode ser identificada
na produção dos equipamentos de medição
que atualmente apresentam os valores em microwatts por cm2,
que diz respeito, portanto, à energia incidente sobre
a superfície, a partir da qual pode-se verificar se será
atingida a energia de ativação, ponto que dá
início ao processo de deterioração do acervo.
Caso tenha-se também um luxímetro para realizar
medições no nível de iluminamento da área
sob verificação, é possível fazer-se
a conversão de unidades entre microwatts por lúmem
e microwatts por cm2. A aferição dos índices
de emissão de radiação UV, pelas fontes
artificiais de luz, tem sido uma preocupação que
carrego a algum tempo. No exercício de minhas atividades
profissionais no IPHAN, ao ser indagado pelos projetistas da
área sobre esta questão, era posto em dificuldades,
pois as informações que dispúnhamos eram
oriundas de dados fornecidos pelos fabricantes, nem sempre confiáveis,
sendo muitas vezes baseados em aferições realizadas
em produtos fabricados fora do país. Ao desenvolver estudos
relativos ao problema exposto, pude verificar, por exemplo,
que uma mesma lâmpada fluorescente fabricada na Inglaterra
difere em termos de espectro eletromagnético de emissão
de UV de uma produzida nos EUA. Tal resultado é devido
ao fato que a quantidade de ferro que compõe o vidro
do tubo da lâmpada é diferente, afetando o nível
de emissão de UV da lâmpada. Especificamente em
relação ao Brasil, cumpria fazer-se a aferição
das lâmpadas aqui comercializadas, na busca de um parâmetro
que norteasse a especificação das fontes artificiais.
No trabalho desenvolvido, no mestrado, foram aferidas com a
utilização de moderno ultravioletímetro,
cerca de 190 modelos de lâmpadas disponíveis no
mercado brasileiro. Neste ponto, constatei não só
a ausência de metodologia de medição com
relação à emissão de radiação
UV, bem como a inexistência de padronização
com relação às fontes de calibração
a serem utilizadas pelos ultravioletímetros. Ao serem
detectados elevados índices de emissão de radiação
UV, algumas intervenções corretivas podem ser
feitas. As mais comuns envolvem a instalação de
filtros nas janelas, nas cúpulas de iluminação,
nas luminárias, etc. Entretanto, cabe informar que os
filtros de boa qualidade e real eficiência apresentam
custos relativamente altos e devem prever manutenção.
Uma opção é a utilização
de absorventes naturais, vários tipos de materiais que
podem ser inseridos nos ambientes, como por exemplo, na formulação
de tintas, apresentam boas características neste sentido
– cito, a título de exemplificação,
o óxido de titânio. Outra providência, claro,
seria a utilização de fontes artificiais de luz
com baixa emissão de ultravioleta. Um último fator
importante com relação ao projeto de iluminação
é a necessidade prever-se a acomodação
visual. Ao trabalhar-se com níveis de iluminamento baixos,
requisito fundamental, como visto, para que não ocorra
a deterioração da pintura ou do acervo pela própria
luz, o espectador tem que ser “preparado” para que,
ao entrar nestes ambientes, não sinta o espaço
mal iluminado. Deve-se projetar a iluminação dos
espaços intermediários de forma a acomodar a retina
do olho humano do espectador, de modo gradual, assim ao deparar-se
com uma obra iluminada com 50 lux, a percepção
seja a de uma iluminação suficiente.
Caros colegas da área da cultura, muito resumidamente,
o exposto acima é o que entendi ser pertinente trazer
para o debate. Obrigado pela atenção.