O
controle climático em museus quentes e úmidos
[Conservação preventiva e o controle climático
Franciza
Toledo
Três questões serão abordadas nessa palestra.
Primeira, a interação entre o edifício
do museu e sua coleção; não se pode pensar
a coleção, nem o edifício do museu, em
separado, pois eles formam uma unidade. Essa interação
nem sempre é vista pelo arquiteto, nem pelo conservador;
é preciso que pensemos nos dois, como um todo. O segundo
tema é o edifício do museu como agente de conservação
preventiva. O edifício tem condições, se
melhorado, de abrigar e proteger suas coleções,
sem nenhum tipo de sistema auxiliar mecânico. O terceiro
ponto é a procura de formas alternativas de controle
ambiental. Se, num edifício, todas as melhorias possíveis
foram feitas e, mesmo assim, ele não atende as necessidades
da coleção, então se parte para a escolha
de um sistema mecânico de controle ambiental. Venho trabalhando
em formas alternativas de controle ambiental, que não
seja o uso do tradicional ar-condicionado.
O
edifício do museu e sua coleção. O edifício
do museu e sua coleção são um todo; não
podemos separá-los. O edifício do museu pode suavizar,
ou agravar, as condições climáticas externas.
O edifício do museu funciona como um envelope, como um
escudo, é a primeira barreira de proteção
da coleção. Mas se ele não for pensado
e construído de maneira adequada, ele pode piorar tais
condições externas.
Por
exemplo, um edifício antigo, de paredes muito grossas,
com uma coberta bastante estragada, vai ser extremamente úmido
no seu interior; medições e estudos já
foram feitos em museus que ocupam edifícios antigos,
que não foram bem restaurados ou não chegaram
a ser restaurados, e as condições do lado de fora
desses edifícios são melhores que as condições
internas.
O
edifício pode contribuir para acelerar o processo de
degradação das obras ou pode ajudar a suavizar,
ou reter, o processo de envelhecimento da coleção
que está ali abrigada. Não adianta restaurar uma
obra, ou coleção, se ela continua exposta ou guardada
em local inapropriado. Muitas vezes, uma coleção
é restaurada, mas volta para o mesmo ambiente insalubre
que originou seus danos físicos. Quer dizer, tratou-se
dos efeitos, mas não das causas de deterioração.
Daqui a um tempo, cinco ou dez anos, essa coleção
ou essa obra, que foi restaurada, terá que sofrer nova
intervenção.
O
que se vê nos museus é a diferença de valor
e de qualidade ambiental e espacial entre as salas de exposição
e as reservas técnicas. As salas de exposição
normalmente são bem cuidadas, limpas, e a reserva técnica,
sempre relegada a último plano; é o que sobra
dentro do edifício do museu. Normalmente, as reservas
técnicas ou estão nos porões ou nos sótãos,
ou numa sala que sobrou. O que está em reserva é
tão valioso, ou tão importante, quanto o que se
expõe.
Os
materiais, sobretudo os orgânicos, reagem às mudanças
climáticas, através da perda e ganho de umidade.
É a forma que eles têm de se ajustarem ao clima.
Se a obra está num espaço muito úmido,
num porão, ela estará em breve toda mofada. O
clima quente e úmido é extremamente propício
à biodeterioração, ou seja, à deterioração
causada por microorganismos, fungos e bactérias, e insetos.
Quando há excesso de umidade, há fungos e, por
conseqüência, insetos.
Um
exemplo de perda de umidade: essas cadeiras estavam num espaço
úmido; o couro já tinha se adaptado ao ambiente;
depois esse conjunto de cadeiras passou para uma reserva técnica
extremamente quente e seca, e o couro se distorceu, perdeu umidade
e rachou.
O
edifício como agente passivo de conservação.
Passivo porque o edifício, por si só, pode criar
condições adequadas à conservação
do acervo. O edifício deve promover um ambiente seco
e estável. É muito importante o controle da umidade,
mesmo que para isso seja preciso esquentar um pouco o ar, ou
promover uma variação maior da temperatura. Claro
que isso não se aplica a todos os tipos de acervo; há
acervos especiais, como os acervos fotográficos, de filmes,
instáveis e delicados, ou acervos arqueológicos,
que precisam de um controle mais rigoroso, e de valores climáticos
baixos.
O
controle ambiental ligado ao conforto humano também se
aplica à preservação do acervo. São
aspectos do desenho e ações, que tanto valem para
o conforto do visitante do museu, como ao ‘conforto’
da coleção. No caso do clima quente e úmido
devem-se evitar, a todo custo, os ganhos térmicos. Evitar
a incidência solar direta, e os ganhos térmicos,
sobretudo por radiação. O sol nos trópicos
é muito alto, e a cobertura é a parte do edifício
que recebe mais incidência de sol e mais calor. O isolamento
térmico da coberta é muito importante. Outra recomendação
para as coberturas, no caso dos edifícios tradicionais,
é o uso da telha cerâmica. Existem hoje telhas
cerâmicas esmaltadas e telhas metálicas, que são
extremamente reflexivas, que também ajudam a evitar um
ganho maior de calor pela cobertura.
Outra
recomendação é o uso de paredes duplas
com colchão de ar entre elas. A parede dupla pode ter
aberturas inferior e superior, de forma que se cria uma circulação
de ar, e uma certa inércia térmica. Os edifícios
antigos têm paredes grossas, algumas de um metro, de pedra,
adobe, ou de tijolo maciço. Aproveita-se a inércia
térmica dessas paredes para que o clima proporcionado
pelo edifício seja o mais estável possível.
Outra
questão a que devemos estar atentos é a penetração
de água no edifício. Temos chuvas muito fortes;
no Norte, mais perto do Equador, chove diariamente. Mais uma
vez, temos que ter muita atenção com a cobertura.
A impermeabilização da cobertura, no caso de lajes
planas, ou lajes com certa inclinação, dependendo
do desenho do edifício, é outra questão
importante. A impermeabilização é trabalhosa,
cara e requer manutenção; mas é uma forma
de se evitar infiltração de água pela cobertura.
Sempre que possível, é recomendável que
a cobertura tenha grandes inclinações para que
a chuva escorra e não penetre no edifício, O teto
inclinado é característico do edifício
antigo. A laje plana, num clima onde chove muito, onde há
muita água para ser drenada, é um sério
problema de conservação.
A
impermeabilização externa das paredes. Nos climas
frios, a impermeabilização e o isolamento térmico
são feitos no interior do edifício, porque tais
espaços não podem perder calor; as pessoas precisam
do calor dentro do ambiente; nos climas tropicais, é
preciso que o calor fique do lado de fora do edifício.
Precisamos isolar e impermeabilizar a parede do lado de fora,
seja através de uma caiação, que é
tão comum, ou do uso do azulejo; há certo isolamento
térmico porque elas tornam-se superfícies reflexivas,
não havendo absorção de calor; e também
não há umidade, porque a cal também dá
uma certa impermeabilização à superfície
onde é aplicada.
Nos
trópicos, recomenda-se não usar nenhum material
impermeável no interior do edifício; é
preciso que as paredes sejam porosas e que absorvam a umidade
produzida internamente, seja pela respiração,
perspiração, ou pelas atividades humanas. É
preciso que a parede seja porosa, para que ela perca ou ganhe
umidade para o ambiente. Uma parede impermeável pode
provocar condensação, sobretudo em ambientes com
ar-condicionado.
O
afastamento do solo, nas casas antigas, através do porão
alto. O porão alto é feito para soltar o edifício
do solo; é um espaço para ser úmido mesmo.
O porão possui aberturas nas paredes opostas que facilitam
a ventilação cruzada, mantendo a umidade, ali,
naquele espaço, para que ela não suba. Sempre
que lidamos com edifícios do século dezenove,
com essa característica construtiva, tenta-se, na medida
do possível, aproveitá-la. Outra solução
que pode ser recomendada, para os edifícios mais novos,
sobretudo para reservas técnicas, é o sistema
‘palafita’, ou seja, o de subir o edifício
e produzir um colchão de ar sob ele; isso evita que a
umidade suba pelas paredes. É também mais fácil
detectar a presença de insetos.
O
edifício, seja ele para um museu, ou para uma reserva
técnica, tem que levar em consideração
a orientação mais adequada. No nosso caso, a ventilação
predominante é sudeste ou nordeste; então pelo
menos duas fachadas podem concentrar as áreas nobres
de um museu.
Por
último, os elementos de sombreamento. A sombra é
importantíssima no nosso clima. A incidência direta
do sol, na fachada ou pelas janelas, é prejudicial ao
conforto humano e à conservação material.
Os grandes beirais, o brise-soleil, tão usado pelos arquitetos
modernos, são elementos que ajudam a sombrear e a reduzir
os ganhos térmicos dentro do edifício; os cobogós,
que são elementos vazados, muito usados no Nordeste,
e que dão sombra. As venezianas nas janelas, no século
dezenove, assim como os muxarabis, nos séculos dezessete
e dezoito, que também são elementos vazados, treliças
que dão sombra, protegem fachadas ou aberturas, como
portas e janelas, mas não impedem a ventilação.
Eis
um exemplo de impermeabilização e isolamento térmico:
uma igreja com a fachada azulejada na Bahia. A torre, com azulejos,
é do século dezessete, e o frontão, com
azulejos cujo desenho já é do século dezoito.
Isso exemplifica a sabedoria de nossos engenheiros portugueses,
naquela época, que souberam entender bem o clima e adaptar
sua tradição construtiva. O azulejo desempenha
externamente duas funções: de impermeabilização,
pois é um material que não deixa a água
passar, e é reflexivo, e também não deixa
o calor entrar dentro do edifício. Hoje, o uso dos azulejos
foi substituído pela cerâmica, que tem sido usada
indiscriminadamente, porque é fácil de se manter,
e não precisa de limpeza freqüente. A cerâmica
está sempre brilhando na fachada.
Como
avaliar o edifício? Primeiro, olha-se para a coleção,
avaliam-se as suas condições físicas. Depois,
usamos as plantas baixas do edifício para registrar e
localizar os problemas encontrados; isso é útil
para uma melhor visualização, sobretudo se existem
vários pavimentos.
Usamos
armadilhas para insetos, que é uma forma de sabermos
se o edifício está muito vulnerável ao
seu ataque e localizamos os focos de entrada. É interessante
sabermos que tipo de infestação está acontecendo,
para investigarmos e sanarmos a causa.
É
importante medir a umidade e a temperatura do ar. Medir a umidade
e a temperatura não só dentro do edifício,
como fora dele; dessa forma, sabe-se como esse edifício
está se comportando em relação às
condições externas. Ele é um envelope protetor
ou não? As condições internas são
piores do que as que estão sendo medidas externamente?
Não adianta medir só internamente se não
se sabe o que ocorre lá fora. Essa medição
é necessária, porque saberemos qual é o
desempenho higrotérmico do edifício, como ele
se comporta em relação à umidade e à
temperatura exteriores; e essa medição é
muito importante para que determinemos as zonas climáticas
interiores, porque o edifício, por mais bem orientado
que ele seja, terá áreas mais e menos estáveis.
Através
dessa medição, tem-se uma idéia das salas
mais estáveis, das menos úmidas, e dessa forma
podemos distribuir melhor a coleção. Os materiais
mais sensíveis e frágeis vão para as salas
mais estáveis, menos úmidas; os metais e as cerâmicas
podem ficar mais expostos, numa sala onde haja mais luz e seja
mais quente. E assim temos condições de planejar
o ‘layout’ do museu. Além de conhecer melhor
o edifício, como ele se comporta.
Outra
questão importante é uma avaliação
de riscos, como infiltração de água, ou
inundação, por chuva, ou por rompimento de um
cano de água. O risco de incêndio também
é grave; vimos, no ano passado, a igreja matriz de Pirenópolis
se acabar assim. Ao tempo em que estamos avaliando os riscos
dentro do edifício, devemos avaliar a coleção,
saber quais são os objetos mais combustíveis,
os que são mais sensíveis a danos por causa de
água; a intensidade de luz também tem que ser
avaliada, a umidade do ar, e a presença de insetos.
Feito
isso, checados esses cinco itens, temos então que pensar
num plano de emergência. Poucos museus brasileiros têm
um plano de emergência para ações imediatas,
no caso de um sinistro. E depois, é importante a elaboração
de um plano diretor onde o papel do museu é pensado a
médio e longo prazo; poucos museus têm um plano
diretor.
Como
avaliamos a coleção para saber se ela está
sofrendo por causa do edifício? Observamos se ela mudou
fisicamente, ou se as cores esmaeceram; procuramos por corrosão
dos metais, e por mofo, sobretudo nos materiais orgânicos;
olhamos para as paredes e vemos se o reboco está esbranquiçado
ou se desfazendo, ao que chamamos de eflorescência salina.
Procuramos, sobretudo nas madeiras, por rachaduras e distorções.
Nas madeiras e nos livros, observamos a presença de furos,
pó de madeira ou pequenos excrementos. Cada um desses
efeitos corresponde a uma causa.
Aqui
está um exemplo de mapeamento de danos; é muito
esquemático, mas ajuda muito. Trata-se de um edifício
do século dezenove que será uma casa museu. Ele
tem um problema sério de umidade ascendente, porque está
numa ilha, o lençol freático é muito alto,
e chove muito. Ele tem um revestimento interno de madeira, que
está apodrecendo por causa da umidade, e depois pelo
ataque de fungos, que causam o apodrecimento da madeira. No
primeiro pavimento, toda a estrutura de madeira do piso foi
perdida. O estuque do forro arriou. Então criamos códigos
que definem o que está estruturalmente fragilizado, e
também as perdas materiais, em vermelho. Assim, é
mais fácil localizar e acompanhar periodicamente a evolução,
ou a redução, de problemas.
Voltemos
à questão do monitoramento da temperatura e da
umidade relativa do ar. Podemos fazê-lo de duas maneiras.
Há o monitoramento pontual, que consiste em medições
com aparelhos que só vão nos dar valores pontuais;
podemos usar o psicrômetro, que é um equipamento
antigo, mas extremamente útil e preciso. Qualquer instituição
tem condições de ter um. Outra opção
é o uso de um termohigrômetro, que é um
aparelho mais moderno, já com vários fabricantes.
É preciso, entretanto, ter muito cuidado com os sensores
de umidade, porque eles não são muito precisos.
Recomendam-se, para as instituições com expediente
de oito horas, pelo menos três medições
diárias: às oito horas da manhã, quando
a umidade está mais alta; às duas da tarde, quando
a umidade relativa é mais baixa; e a terceira medição
deverá ser feita no final do dia.
Há
também a opção de trabalharmos com o monitoramento
contínuo e, para isso, há o termohigrógrafo,
que também é um aparelho tradicional, extremamente
preciso e útil; entretanto, com o termohigrógrafo,
temos apenas a leitura da temperatura e umidade relativa do
ar, mas não podemos tratar estatisticamente esses dados;
a não ser que isso se faça manualmente, o que
demanda muito tempo. Mais recentemente, existem os ‘dataloggers’,
que são aparelhos de tamanho reduzido, que vêm
com um software que é instalado no computador e que podem
ser programados para leituras horárias, ou frações
de hora; e temos condições de descarregar essas
informações no computador e fazer gráficos.
Todos são muito úteis e todos têm vantagens
e desvantagens.
Agora
vamos falar sobre o controle ambiental, como controlamos a temperatura
e a umidade dentro de um museu. É importante a manutenção
física do edifício. Manutenção,
ou seja, limpeza, vistorias e reparos periódicos, são
fundamentais. É um trabalho exaustivo, que não
aparece, mas extremamente importante; é tão importante
quanto curarmos ou montarmos uma exposição.
Escolher
o sistema de controle climático, de acordo com as características
físico-funcionais da instituição, é
outro item muito importante. A instituição pode
ser muito pequena, com um orçamento mensal pequeno. Não
há como instalar um sistema sofisticado de ar-condicionado
nesse museu, se ele não tem condições de
mantê-lo, nem de pagar a conta de energia, e nem de contratar
um serviço de manutenção, se ele quebrar.
Se não há condições de se fazer
nada no museu, isolamos as obras mais sensíveis, em zonas
climáticas mais estáveis. Se isso ainda não
for suficiente, construímos uma vitrine, onde poderemos,
num espaço menor, controlar melhor, tanto a umidade,
como a luz. Este é um exemplo de um microclima inadequado.
Vejam como os objetos de prata estão escurecidos. Esse
armário metálico foi pintado recentemente, e a
tinta fresca ainda está exalando gazes; além disso,
o colchão é de feltro, que também exala
gazes, e escurece a prata, que é muito sensível
à poluição atmosférica.
Um
exemplo de microclima adequado: um projeto do Museu Nacional,
feito com o suporte do Instituto Getty de Conservação.
Uma dessas múmias estava se deteriorando porque houve
uma infiltração de água e ela foi molhada,
ficando cheia de fungos, e com um cheiro esquisito. Como o museu
ainda não dispõe de recursos para a confecção
de vitrines hermeticamente fechadas, o Instituto Getty de Conservação
doou esse filme, da Mitsubishi, que foi especialmente criado
para proteger peças frágeis e mantê-las
em atmosfera inerte. É impermeável à umidade
e à passagem do oxigênio. A deterioração
material acontece na presença do oxigênio; então
o oxigênio é retirado através da purgação
da bolha com o nitrogênio, cuja percentagem, na atmosfera,
é maior (78%) do que a do oxigênio (21%). Então
se retirou todo o oxigênio do ar dentro da bolha. Embaixo
da múmia, há uma bandeja com sílica gel
e carvão ativado, por causa do cheiro forte dos restos
humanos. Foram colocados pequenos monitores de umidade e temperatura,
feitos de papel. Enquanto o museu não tiver recursos
para construir vitrines adequadas para essas três múmias,
elas ficarão nas bolhas; e o processo de deterioração
por microorganismos foi eliminado.
Mais
algumas considerações, já que estamos chegando
ao fim. O edifício pode e deve ser um envelope protetor.
Algumas soluções construtivas minimizam a necessidade
de um sistema auxiliar de controle ambiental; melhorando as
condições físicas do edifício, gastamos
menos energia, seja com ar-condicionado, ou com ventilação,
ou com desumidificação, porque o próprio
edifício vai ajudar a manter condições
adequadas à coleção.
Os
materiais se adaptam às condições climáticas,
desde que elas sejam estáveis, sobretudo os materiais
orgânicos. Se o ambiente é estável, com
temperatura e umidade constantes, mesmo que um pouco altas,
a coleção estará bem. Devemos evitar a
flutuação climática diária, que
os aparelhos de ar-condicionado provocam, porque são
desligados durante a noite e ligados durante o dia. Essa variação
muito grande de valores é muito prejudicial aos materiais.
Nesse sentido, o ambiente interno deve ser o mais próximo
possível do externo, de maneira que se evitem muitas
mudanças físicas, tanto no edifício, como
na própria coleção; e isso também
ajuda a gastarmos menos energia.
Por último, deve-se tirar proveito da ventilação.
Temos os ventos alísios, que sopram durante o ano todo.
A ventilação é muito importante no nosso
clima quente e úmido, e hoje há estudos sobre
os benefícios da ventilação, no sentido
de evitar a biodeterioração. Há várias
hipóteses. Primeiro, com a ventilação,
é possível que os esporos não consigam
se assentar; outros pesquisadores dizem que, com a ventilação,
há sempre evaporação da umidade na superfície,
e portanto não há água livre nos substratos
(do papel, couro, ou da pintura), para que os fungos germinem.
Estamos usando a ventilação em conjunto com a
desumidificação.
Não
há apenas uma ou duas maneiras de se controlar o clima
quente e úmido. Os nossos museus ou são naturalmente
ventilados, ou são ar-condicionados. Há outras
opções, e a escolha da mais adequada será
aquela que atenda os requerimentos físicos da coleção,
em primeiro lugar, e as limitações físicas
e estruturais do edifício, sobretudo se estivermos lidando
com edifícios antigos, que são tão preciosos
como a coleção que vão guardar. Devemos
obedecer aos princípios de sustentabilidade, que se traduzem
em fácil manutenção, e não gastam
muita energia.
Eis
aqui uma carta psicrométrica simplificada, tirada de
Thomson. A linha vertical apresenta a umidade absoluta, que
é a quantidade de vapor de água por metro cúbico
de ar; no eixo horizontal está a temperatura; e as linhas
curvas representam a umidade relativa que varia em função
da temperatura e da umidade absoluta. O ‘A’ é
o nosso caso típico; essas são as condições
de um museu naturalmente ventilado, com setenta por cento de
umidade relativa, e vinte e sete graus centígrados de
temperatura. Os padrões internacionais nos dizem que
há que se chegar a ‘B’. Esse é o padrão
internacional: cinqüenta por cento de umidade relativa,
e vinte graus centígrados de temperatura. Com isso, nossas
coleções vão perder umidade para o ambiente.
Por isso, essa passagem deve ser feita muito lentamente, para
que o material tenha tempo para se adaptar.
Vamos
supor que um museu possua um sistema que possa fazer isso, baixar
a temperatura, de vinte e sete graus para vinte, e baixar a
umidade de setenta por cento para cinqüenta por cento.
Isso normalmente acontece rapidamente, durante o dia, porque
durante a noite, quando o sistema é desligado, as condições
em ‘B’ voltam para aquelas em ‘A’. Vejam
a quantidade de água que o ar perde, de vinte gramas
de vapor d’água por metro cúbico, para apenas
oito. Então o ar perde umidade e com ele todos os materiais
orgânicos, porque o material tende a se ajustar a essas
novas condições ambientais. Durante a noite, o
ambiente ganha novamente umidade e o objeto também.
Há
um momento em que o material entra em colapso, ele racha; de
tanto se movimentar, contraindo-se e expandindo-se, ele perde
irreversivelmente sua elasticidade. Outra situação
perigosa é quando o ar-condicionado não possui
controle de umidade, como nas grandes centrais de ar-condicionado,
com resfriamento através de água gelada. Então
se abaixa a temperatura, e chega-se à curva de saturação
e à condensação; o ar com uma umidade de
setenta por cento, resfriado, passa a ter cem por cento. O ar
não sustenta mais o vapor d’água e condensa,
então, nas superfícies mais frias. Em museus que
usam esse tipo de ar-condicionado, existe sempre um cheiro de
mofo.
Outra
opção que muitos museus usam, interessante mas
limitada, porque o espaço tem que estar fechado, é
a desumidificação. São os desumidificadores
portáteis, com rodas, que mudam a situação
de ‘A’ para ‘B2’. Isso se faz com freqüência
e é recomendável; mantém-se a temperatura
alta, há uma pequena redução da umidade
absoluta, e reduz-se a umidade relativa. Em nossas condições,
e de acordo com as características de nossas coleções,
não há necessidade de se chegar a cinqüenta
por cento de umidade relativa. Se o edifício tem grande
inércia térmica, ainda pode-se sair de ‘A’,
um museu naturalmente ventilado, para ‘B’, ou seja,
de vinte e sete graus centígrados a setenta por cento,
para sessenta por cento, e vinte e seis graus centígrados,
ventilando-se o edifício durante a noite.
Em
uma vitrine, onde haja objetos de metal expostos, com problemas
de corrosão, pode-se baixar a umidade relativa aquecendo
o ar, através de pequenas resistências elétricas,
criando-se assim um microclima, com umidade baixa, sem mexer-se
em todo edifício. Essa é a condição
B1, quando baixamos a umidade relativa com o aumento da temperatura.
Com essas opções, temos o controle da umidade
e da biodeterioração, e não vamos a extremos,
porque os extremos são difíceis de controlar;
devemos chegar a um equilíbrio.
E
o ‘B3’ é o que temos feito hoje, com o uso
da ventilação diurna e desumidificação.
Estaremos usando esse sistema no herbário do Museu Nacional,
ventilando durante o dia, no período mais quente, e desumidificando
o ar interno, quando as condições externas não
forem favoráveis. Trata-se de um sistema de ventilação
e desumidificação mecânico; os ventiladores
e desumidificadores são controlados por sensores de umidade
relativa; esses sensores passam o comando para um quadro elétrico
que controla o acionamento dos aparelhos. Sempre que a umidade
do lado de fora estiver menor que setenta, e a interna maior
que setenta, esses sensores dão sinal elétrico
ao painel para que os ventiladores funcionem. Quando a umidade
interna estiver abaixo de, ou igual, a sessenta e cinco por
cento, o sistema estará parado. Quando chove, estando
ambas umidades altas, externa e interna, os desumidificadores
funcionam.
Esta
é a planta baixa da reserva técnica do Museu Goeldi.
Há dois ventiladores centrífugos do lado de fora,
com filtros (para partículas). O ar filtrado passa por
esses dutos insufladores, no centro; os retângulos são
os armários compactadores e, ao longo das paredes laterais,
há os exaustores, com os dutos que sugam esse ar do centro,
e é coletado em baixo, e posto para fora, através
de ventiladores axiais. Estes são os sensores interno
e externo, e o painel de controle.
Eis
um gráfico, com linhas que correspondem aos valores de
temperatura e umidade relativa externos e internos: o rosa é
a temperatura fora e o vermelho a temperatura dentro da reserva.
A temperatura em Belém do Pará está em
torno de trinta graus centígrados. Vejam que o uso da
ventilação aumenta a variação diária
da umidade relativa, mas essa variação não
é maior que dez por cento, ou seja, mais ou menos cinco
por cento. O sistema parou de funcionar, e a umidade subiu paulatinamente
até os oitenta por cento.
Esses
são os aparelhos que usamos; há ventiladores de
grande potência para grandes espaços, com grande
vazão de ar; e, para salas menores, usamos exaustores
de parede; usamos também desumidificadores e purificadores
de ar.
Para
finalizar, a prevenção é mais abrangente,
envolve a coleção, é mais rápida
e econômica; ela exige bom senso, lida com as causas de
degradação, não intervém diretamente
na obra, é uma ação coletiva e multidisciplinar,
de uma equipe que trabalha nos bastidores. A restauração
é localizada, com foco em um objeto; ela é mais
lenta e mais cara; ela exige ‘expertise’, formação
e conhecimento profundo; ela lida com os efeitos, e intervém
diretamente na obra, e ela é uma ação mais
individual, onde o conservador brilha no palco. Há um
velho ditado que diz que é melhor prevenir do que remediar;
mas porque não o fazemos? Será que essa é
uma questão cultural, de mentalidade? Isso se deve à
nossa formação intervencionista, ou à falta
de conhecimento dos dirigentes? Tentamos sempre fazer o melhor,
mas falta-nos planejamento, e falta-nos sobretudo ações
de manutenção.